Alan e eu trocamos um olhar.
“Emily”, eu disse com cuidado, “o que significa ‘Pergunte a ele sobre Denver’?”
Ela congelou.
Aquela única palavra a atingiu com mais força do que a medicação. Sua respiração acelerou. O monitor cardíaco começou a registrar sinais vitais mais altos.
Alan praguejou baixinho.
“Richard, pare. Você está causando uma taquicardia nela.”
Mas Emily me olhava agora, horrorizada, não por eu ter dito aquilo, mas porque eu sabia.
“Você viu”, ela sussurrou. “Meu Deus.”
Então ela desmaiou.
Todo o resto aconteceu rapidamente. Alan solicitou exames de imagem, exames de sangue, uma consulta psiquiátrica e um boletim de ocorrência. Eu fiquei no corredor com sangue seco nas mãos e liguei para Daniel Miller.
Ele atendeu no segundo toque, agitado.
“Richard? Estou tentando encontrar a Emily.” Ela saiu depois do jantar e…
“Ela está no St. Mary’s.”
Silêncio.
“Ela está bem?”
A preocupação em sua voz parecia real. Real demais.
“Venha agora mesmo”, eu disse, e desliguei.
A polícia chegou em menos de quinze minutos. A detetive Lena Ortiz, na casa dos quarenta, com um olhar penetrante e eficiente, ouviu enquanto eu descrevia as iniciais, a mensagem e como Emily havia me implorado para não contar a ele que ela ainda estava viva.
Sua reação não foi a que eu esperava.
Ela perguntou:
“Sua filha mencionou algum depósito ou a chave de um cofre?”
Eu a encarei.
“O quê?”
Ela tirou uma foto da pasta e me entregou.
Era Daniel.
Não em um ambiente familiar. Não em um casamento. Era uma imagem granulada de vigilância, ao lado de um SUV preto em frente a um prédio federal em Denver, Colorado.
Minha garganta se fechou.
“O que é isso?”
“Estamos investigando uma fraude financeira ligada a uma startup biomédica”, disse Ortiz. “Empresas de fachada, dados de pacientes roubados, contratos ilegais de testes. O nome do genro dela surgiu há seis semanas.”
“Isso é impossível. Daniel vende equipamentos médicos.”
“Essa é a versão oficial.”
Alan se aproximou um pouco mais.
“O que tudo isso tem a ver com Emily?”
Ortiz olhou para a cortina da Sala de Trauma Dois antes de responder.
“Acreditamos que ela descobriu algo que não deveria.”
Senti o chão tremer sob meus pés.
Emily havia se casado com Daniel três anos atrás. Ele era impecável, bem-sucedido, atencioso. Talvez até demais. Mas um criminoso? Não. Eu teria percebido.
Ou não?
“Por que ele não foi preso?”, perguntei.
“Não conseguimos provar a conspiração”, disse Ortiz. “Ainda não.” Então, ontem, uma testemunha desapareceu em Kansas City. Hoje, sua filha foi parar no pronto-socorro com uma mensagem tatuada nas costas.
Ele não precisava dizer mais nada.
Isso era mais grave do que violência doméstica.
Daniel chegou pouco antes da meia-noite. Caminhou pelo corredor com a gravata frouxa, o rosto pálido e os olhos vermelhos. A cena teria convencido qualquer um.
Talvez me convencesse também, pelo menos uma vez.
“Richard, onde ela está?”
Ortiz estava parado na frente dele.
“Daniel Miller?”
Ele se assustou ao ver o distintivo, mas só por um instante. Então a tristeza voltou, controlada, calculada.
“Ela é minha esposa”, disse ele. “O que aconteceu?”
Tirei o pedaço de pano do bolso e o mostrei.
Seu olhar pousou nas iniciais.
E essa foi a primeira brecha.
Seu rosto não demonstrava culpa.
Demonstrava reconhecimento.
Depois, medo.
“Essa não é minha”, disse ele rápido demais. “Estava na mão dela.”
Ele engoliu em seco.
“Então alguém quer que pareça que sim.”
Ortiz o observou em silêncio.
“Onde você estava entre oito e dez da noite?”
“Em casa. Depois, dirigindo pela região procurando por ela.”
“Alguém pode confirmar isso?”
Ele abriu a boca. Fechou-a.