Sou um cirurgião aposentado. Certa noite, já muito tarde, um ex-colega me ligou para dizer que minha filha havia sido levada às pressas para o pronto-socorro.

Nesse instante, o pager de Alan vibrou. Ele olhou para a tela, franziu a testa e murmurou:

“Que estranho.”

“O que houve?”, perguntei.

“Acabou de aparecer o resultado da tomografia da Emily.” Ele me olhou, inquieto. “Richard, venha comigo.”

Entramos na sala de radiologia. Imagens da coluna dela brilhavam no monitor, nítidas, espectrais.

Eu era cirurgião há trinta e seis anos. Conhecia o corpo humano. Sabia o que deveria estar lá dentro.

Mas não aquilo.

Algo pequeno e metálico estava alojado sob a pele dela, perto da omoplata esquerda, invisível do lado de fora. Não era uma bala. Não era material cirúrgico.

Alan deu um zoom.

Era uma cápsula.

Um dispositivo de rastreamento.

E antes que qualquer um de nós pudesse falar, as luzes da sala se apagaram.

Todas as telas ficaram pretas.

Um segundo depois, o primeiro grito ecoou pelo corredor. Parte 3:

O grito veio da Sala de Trauma Dois.

Eu já estava correndo antes mesmo das luzes de emergência piscarem, banhando o corredor em um vermelho intermitente. Enfermeiras gritavam. Alguém esbarrou em mim. Alan estava logo atrás.

Quando passei pela cortina, a cama de Emily estava vazia.

Por um segundo, paralisante, pensei que ela tivesse sido levada.

Então vi o rastro de sangue que levava ao banheiro.

Corri para dentro e a encontrei encolhida no chão de azulejos, uma mão agarrando o ombro, o soro arrancado, sangue escorrendo pelo braço. Ela havia saído da cama rastejando.

“Pai”, ela ofegou. “Eles apagaram as luzes porque estão aqui.”

Ajoelhei-me ao lado dela.

“Quem?”

“Não foi o Daniel”, ela disse.

Aquilo me paralisou.

Alan trancou a porta do banheiro.

“Fale.”

Emily engoliu em seco, tremendo.

“Daniel descobriu, há seis meses, que a empresa para a qual trabalhava, a VasCor Biotech, estava usando dados hospitalares para identificar pacientes vulneráveis ​​para testes de medicamentos não autorizados. Eles tinham contatos em todos os lugares: faturamento, clínicas particulares, centros de reabilitação. Daniel tentou se demitir quando percebeu a extensão do esquema.”

Olhei para ela.

“Então, por que ele não foi à polícia?”

“Ele foi”, disse uma voz da porta.

O detetive Ortiz entrou, arma em punho, resoluto apesar do caos lá fora.

“Discretamente. Por meio de canais federais. É por isso que Denver era importante.”

Emily olhou para mim.

“Foi em Denver que ele conheceu o responsável pela conformidade. Ele pensou que estava denunciando uma fraude. Na realidade, descobriu que o consultor jurídico sênior da empresa havia protegido a operação por anos.”

“Quem?”, perguntei.

Os olhos de Emily se encheram de lágrimas.

Eu não estava olhando para Ortiz.

Eu estava olhando para Alan.

Virei a cabeça lentamente.

Alan Mercer estava parado, imóvel, perto da pia. Seu rosto estava inexpressivo: nenhuma preocupação, nenhuma confusão, nenhuma negação.

Apenas cálculo.

“Alan?” Minha voz falhou.

Emily se encostou na parede.

“Ele estava lá na noite em que Daniel copiou os arquivos. No começo, Daniel não sabia quem estava vazando os registros dos pacientes para a VasCor. Eu sabia. Encontrei e-mails no tablet do Alan. Contratos. Pagamentos. Nomes.”

Ortiz manteve a arma apontada para ele.

“Dr. “Mercer, afaste-se da porta.”

Alan sorriu. E aquele sorriso foi mais aterrador do que qualquer outra coisa naquela noite.

“Falando sério, Richard, você deveria ter continuado aposentado”, disse ele.

Aquelas palavras me atingiram como uma facada. Tudo se reorganizou na minha mente: Alan insistindo para que eu visse Emily primeiro, Alan controlando a sala, Alan revisando os estudos, Alan sabendo exatamente o que haviam descoberto sobre ela.

“O dispositivo”, eu disse. “Foi você quem o colocou nela.”

“Não pessoalmente”, ele respondeu. “Mas sim. Precisávamos saber para onde ela iria se fugisse.”

Emily começou a chorar silenciosamente.

“Eu pensei que Daniel tivesse me incriminado. Alan me disse que Daniel estava me traindo. Ele disse que se eu contasse, Daniel morreria primeiro.”

“É por isso que você disse que ele não estava sozinho”, sussurrei.

Ela assentiu.

“Daniel me tirou de casa hoje à noite. Ele me disse para pegar os arquivos e vir com você.” Antes que eu pudesse sair da cidade, alguém me agarrou no estacionamento. Nunca vi o rosto da pessoa. Quando acordei, Alan estava lá. Ele tatuou essas palavras nas minhas costas e me disse para fazer você pensar que foi o Daniel. Ele queria que você ficasse furioso.” Distraído.

A raiva me invadiu.

“Filho da…”

Alan se moveu mais rápido do que eu esperava. Ele pegou um cilindro de oxigênio de metal e o arremessou em Ortiz. O arremesso errou o alvo. O cilindro estilhaçou o espelho e cacos de vidro explodiram pela sala.

Alan saiu correndo.

Ortiz praguejou e foi atrás dele. Tentei segui-los, mas Emily segurou minha manga.

“Pai… os arquivos.”

Ela apontou para a bandagem colada em seu lado direito, perto das costelas. Não no ombro. Não no implante.

Outro item escondido.

Arranquei a bandagem. Por baixo havia um pen drive fino, lacrado em plástico.

Emily sussurrou:

“Daniel escondeu isso de mim antes de me mandar para você.”

Então meu telefone tocou.

Daniel.

Atendi no viva-voz.

“Richard”, ele disse.

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