PARTE 1
Aos 65 anos, Dom Arturo estava firmemente convencido de que já havia visto todas as faces da hipocrisia humana. Era o patriarca incontestável e proprietário majoritário de uma das mais imponentes produtoras de tequila de todo o Jalisco, um império do agave com exportações globais que dominava os mercados de Guadalajara à Europa. No entanto, a imensa riqueza que acumulara ao longo de mais de 40 anos de trabalho incansável cobrara um preço emocional devastador.
Ao longo das décadas, Arturo se transformara em um homem de pedra, um misantropo amargo e cronicamente desconfiado. Em sua mente, todos que se aproximavam dele só queriam uma parte de sua fortuna multimilionária. Estava profundamente convencido de que a sociedade era inerentemente egoísta e traiçoeira, especialmente aqueles que viviam na pobreza. Em sua mente endurecida e classista, cada vendedor ambulante, cada lavador de para-brisas e cada mendigo no semáforo não passava de um vigarista profissional, um aproveitador que usava a piedade como ferramenta de manipulação para evitar o trabalho honesto.
Naquela noite de dezembro, o vento gélido que varria o centro histórico de Guadalajara cortava como lâminas de navalha. Arturo acabara de sair de uma tensa reunião de investidores em um restaurante de luxo e, sentindo-se sufocado pela hipocrisia de seus sócios, decidiu caminhar até uma pequena praça próxima para esperar seu motorista particular. Sentou-se em um banco de ferro forjado, envolto em um casaco de grife que custava mais do que a renda média de uma família em cinco anos.
Enquanto verificava freneticamente as ações de sua empresa na tela do celular, uma figura frágil e trêmula rompeu a fria solidão da praça. Era uma criança. Não devia ter mais de oito anos. Estava descalço sobre o calçamento congelado, vestindo apenas uma camisa de futebol desbotada e rasgada, três números maior que o seu.
“Senhor… boa noite, desculpe incomodá-lo a esta hora. Por acaso o senhor teria algumas moedas sobrando? Não como nada há dois dias inteiros, juro pela Virgem Maria”, implorou o menino, com a voz rouca e os dentes batendo de frio, enquanto estendia uma mão suja e cheia de cicatrizes.
Arturo desviou o olhar da tela e o encarou com absoluto desprezo, franzindo a testa como se estivesse olhando para um parasita.
“Saia daqui, seu pirralho!” gritou com fúria desproporcional, cada traço do seu rosto endurecendo. “Não tente me enganar com seus truques baratos! Seu pai provavelmente te faz mendigar na rua para comprar bebida, ou você é um daqueles pequenos delinquentes que roubam por aqui. Arranje um emprego e pare de nos incomodar!”
O menino deu um pulo para trás, aterrorizado pela violência dos gritos do velho milionário. Ele imediatamente baixou a cabeça, escondendo os olhos cheios de lágrimas, e se afastou em completo silêncio, arrastando os pezinhos dormentes pelo chão gelado. Caminhou uns 20 metros e desabou na base de uma fonte seca, abraçando os joelhos ossudos para tentar se aquecer, abafando os soluços na escuridão.
Arturo o observava à distância com um sorriso torto e arrogante. Queria provar a si mesmo que estava certo, que seu cinismo era 100% justificado e que aquele pirralho chorão era apenas um criminoso em potencial esperando o momento perfeito para atacar.
Foi então que sua mente calculista arquitetou uma armadilha perfeita, cruel e humilhante. Tirou sua carteira de couro grosso e exótico do bolso do paletó e retirou um maço enorme de notas. Eram exatamente 50.000 pesos em dinheiro vivo. Com movimentos frios e deliberados, enfiou o maço no bolso externo do casaco, mas fez questão de deixar mais da metade do dinheiro provocativamente à vista, bem à vista de todos.