PARTE 2
O silêncio que pairava sobre minha cozinha era mais gélido que o ar que entrava pela janela quebrada.
Andrés parou de me olhar e se virou para Mariana. Minha nora alisou os cabelos com a mão trêmula, tentando recuperar aquela elegância com a qual sempre parecia se destacar.
“Mariana”, disse meu filho, com a voz baixa e surpreendente, “onde está o dinheiro da minha mãe?”
Ela deu uma risada seca.
“Você vai mesmo começar com isso aqui? No Natal?”
“Eu te fiz uma pergunta.”
Meus netos ainda estavam na sala, brincando perto da pequena árvore. Rezei para que não entrassem, para que não vissem seus pais desmoronarem diante de mim.
Mariana caminhou em direção à mesa e apontou para mim como se eu fosse culpada.
“Andrés, por favor. Olhe para ela. Ela sabe exatamente como te manipular.” A casa gelada, os feijões, o vestido velho… tudo isso é uma farsa. Senti minhas bochechas queimarem.
“Querido, não estou fingindo.”
“Não me chame de ‘querida’”, ele interrompeu. “Você nunca me amou. Sempre me viu como a mulher que levou seu filho.”
Andrés cerrou os dentes.
“Não mude de assunto.”
Mariana respirou fundo, como se estivesse falando com uma criança.
“É claro que eu fiz os depósitos. Todos eles. Se sua mãe não sabe usar a conta ou se gastou com sabe-se lá o quê, a culpa não é minha.”
Essa frase me atingiu em cheio.
“Não tenho outra conta”, eu disse, mal conseguindo falar.
Andrés olhou para mim e, por um segundo, vi dúvida em seus olhos. Essa dúvida me machucava mais do que a fome, mais do que os invernos sem aquecedor, mais do que ter vendido meus brincos de ouro para pagar o mestrado dele.
Porque sim, anos atrás eu havia vendido as únicas coisas que me restavam da minha mãe: uns brincos de filigrana e uma pequena medalha da Virgem Maria. Andrés precisava de dinheiro para estudar em Monterrey. Mariana disse que sem aquele mestrado ele nunca estaria “no nível dela”. Não contei ao meu filho o que eu havia vendido. Disse a ele que era a minha poupança.
Uma mãe guarda muitas coisas para si, pensando que ama melhor assim.
Mas naquele momento eu entendi que o meu silêncio estava me enterrando viva.
“Espere aqui, Andrés”, eu disse.
Fui até o meu quarto, abri o armário e peguei o talão de cheques que eu guardava com a certidão de óbito do meu marido. Voltei devagar e o coloquei sobre a mesa ao lado da panela de feijão.
“Abra.”
Andrés pegou. Folheou as páginas. Sua expressão mudou.
Ali estavam os depósitos da minha aposentadoria: 3.100 pesos a cada dois meses. Uma pequena pensão do governo. Um depósito de 700 pesos que o padre Ernesto tinha feito para mim para comprar remédios. Depois, páginas quase em branco. Saldo final: 84 pesos e 50 centavos.
Mariana cruzou os braços.
“Isso não prova nada. Ele pode ter outra conta. Ele pode ter sacado o dinheiro.”
“Chega”, disse Andrés.
Ele pegou o celular. Seus dedos começaram a se mover rapidamente pela tela. Mariana tentou se aproximar dele.
“Andrés, não faça isso aqui.”
Ele não respondeu.
A cozinha ficou em silêncio. Só se ouvia o gotejar da torneira e minha respiração ofegante.
De repente, Andrés congelou.
Ele olhou fixamente para a tela como se tivesse visto um cadáver.
“Aqui estão as transferências”, disse ele lentamente. “Mês após mês. 50.000 pesos.”
Mariana suspirou aliviada.
Mas Andrés olhou para cima. “A conta de destino não é da minha mãe.”
O rosto de Mariana se fechou.
“Andrés…”
“Está no seu nome. É a sua conta. Uma que eu nem sabia que existia.”
Apoiei-me na mesa para não cair.
Meu filho virou o celular para ela.
“Você ficou com tudo.”
Mariana abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Andrés continuou checando. Sua expressão não era mais de raiva. Era de horror.
“Não era só o dinheiro da minha mãe”, ele sussurrou. “Tem pagamentos de joalherias, viagens, entrada de um caminhão… tudo dessa conta.”
Mariana deu um passo para trás.
E então Andrés encontrou outra coisa.
Uma mensagem arquivada. Uma conversa com a irmã dele, a irmã mais nova de Mariana.
Ele leu em voz alta uma frase que me arrepiou até os ossos:
“Enquanto a velha senhora ficar calada, ninguém vai suspeitar de nada.”
Andrés ergueu os olhos.
E então, pouco antes de toda a verdade vir à tona, Mariana gritou os nomes dos meus netos da sala de estar.