Sua sogra lhe deu 100.000 pesos para fugir com o bebê, mas ao amanhecer todos a chamavam de ladra.

PARTE 1

“Pegue esses 100.000 pesos e vá com o bebê antes que meu filho desça e faça alguma coisa terrível.”

Mariana congelou, segurando a mamadeira em uma das mãos e o bebê febril pressionado contra o peito.

Era quase 1h da manhã em uma casa antiga no bairro de San Miguel, em León, Guanajuato.

Desde que o bebê nascera, Ricardo a fazia dormir no pequeno quarto dos fundos, ao lado da área de serviço, porque dizia que o choro da criança o impedia de descansar.

Dona Elvira, sua sogra, entrou silenciosamente.

Ela cobriu a boca com uma mão trêmula e, com a outra, enfiou um maço de notas na bolsa de fraldas.

“Não faça perguntas, filha. Ricardo chegou bêbado em casa. Ele está quebrando coisas lá em cima e jurou que ia te expulsar. Vá para Celaya com sua mãe. Eu resolvo tudo depois.”

Mariana não sabia o que pensar. Durante meses, Dona Elvira a tratara como uma empregada. Dizia-lhe que uma mulher casada tinha de aguentar, que os homens eram assim, que por uma criança uma mulher engoliria até o seu orgulho.

Mas naquela noite, ela parecia genuinamente assustada.

Mariana lembrou-se das vezes em que Ricardo gritara com ela por respondê-lo, das noites em que gritara por não ter o jantar pronto, dos dias em que a deixara sem dinheiro para fraldas porque, segundo ele, ela “gastava como uma rica”.

“E se eu puder pagar?”, sussurrou Mariana.

“Pela porta dos fundos. Já a destranquei. Vamos, querida, não seja teimosa.”

Mariana arrumou duas mudas de roupa para o bebê, uma manta, a carteira de vacinação e uma pequena bolsa de remédios.

Saiu pelo pátio, com o coração a bater forte no peito.

A rua estava fria e vazia, como se toda a vizinhança fingisse não ouvir o que se passava naquela casa. Ela pegou um táxi até a rodoviária e depois um ônibus para Celaya.

Durante todo o trajeto, ela segurou o bebê junto ao peito, acreditando que, pela primeira vez, sua sogra a havia salvado.

Ao amanhecer, antes de chegar à casa da mãe, recebeu um telefonema de Óscar, um fornecedor da oficina de móveis de Ricardo.

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