Seu filho de 23 anos lhe deu um soco no rosto. No dia seguinte, ela preparou um jantar completo para ele — cuidadosamente planejado e lindamente apresentado —, mas ele não fazia ideia de quem o estaria esperando à mesa.

A culpa era sempre de outra pessoa.

Do pai, por tê-lo abandonado.

Da mãe, por não tê-lo criado.

Da vida, por não lhe dar o que ele queria.

“Eu não tenho, Mateo”, respondeu Elena lentamente.

Ele deu uma risada seca.

“Você sempre diz isso.”

“Porque eu não consigo mais te sustentar assim. Nem por causa da bebida. Nem por ter sumido por dois dias. Nem por ter voltado para gritar comigo.”

Mateo se aproximou. Elena sentiu o peito apertar, mas não recuou.

“Agora você vai se fazer de vítima?”

“Eu sou sua mãe, não sua caixa de supermercado.”

O golpe veio antes que ela pudesse se preparar.

A mão de Mateo atingiu seu rosto com tanta força que Elena bateu na bancada da cozinha. Por um instante, ela só ouviu um zumbido. Levou os dedos à maçã do rosto. Sua pele ardeu.

Mateo não se desculpou. Ele nem sequer parecia assustado.

Apenas olhou para ela com desprezo e disse:

“Foi por isso que meu pai foi embora.”

Então, caminhou até seu quarto e bateu a porta.

Elena ficou parada na cozinha, com uma lágrima presa na garganta que não caía. Ela não dormiu naquela noite. À 1h17 da manhã, pegou o celular e ligou para o homem que jurara nunca mais procurar.

“Roberto… preciso que você venha amanhã.”

Houve silêncio do outro lado da linha.

“O que aconteceu, Elena?”

Ela fechou os olhos.

“Nosso filho passou dos limites.”

Na manhã seguinte, Elena não gritou, não reclamou, não chamou a polícia. Foi ao mercado, comprou carne, tortillas frescas, arroz, abacate, pão doce e flores.

À tarde, preparou um jantar completo, arrumou a mesa com cuidado e colocou três pratos. Mateo desceu as escadas ao entardecer, surpreso com o cheiro de comida.

“O que é isso?”, perguntou, como se nada estivesse errado.

Elena mal esboçou um sorriso.

“Sente-se, filho.” “Vamos jantar em família hoje à noite.”

Mateo não sabia que alguém já o esperava na sala de estar.

E quando ouviu a voz do pai dizer: “Boa noite, Mateo”, o sangue lhe sumiu do rosto.

Ele não conseguia imaginar o que estava prestes a acontecer.

PARTE 2

Mateo ficou imóvel no pé da escada, com a mesma expressão de quando criança, quando era pego mentindo.

Roberto estava sentado à mesa, vestindo uma camisa branca, com os cabelos mais grisalhos do que da última vez que se viram, e o olhar desprovido de qualquer nostalgia. Não era um reencontro agradável. Não houve abraços. Nem um “Filho, como você cresceu!”.

Apenas silêncio.

“O que você está fazendo aqui?”, Mateo cuspiu as palavras.

Roberto não elevou a voz.

“Sua mãe me chamou.”

Mateo lançou um olhar furioso para Elena.

“Estou com raiva.” “Agora você vai trazê-lo aqui para dar uma bronca?” meu? “Depois de tudo o que ele fez?”

Elena encheu os copos com água. Sua mão tremia levemente, mas ela não parou.

“Sente-se.”

“Não me dê ordens.”

“Sente-se, Mateo”, ela repetiu. “Pela primeira vez em anos, você vai me ouvir.”

Ele soltou uma risada amarga, mas sentou-se. Talvez por orgulho. Talvez porque a presença de Roberto despertasse algo que ele não queria admitir.

O jantar estava perfeito. Carne ao molho vermelho, arroz branco, feijão refrito, tortillas quentes embrulhadas em guardanapos de pano. Mas ninguém estava comendo.

Roberto olhou para a maçã do rosto inchada de Elena. Seu maxilar se contraiu.

“Foi você quem fez isso com ele?”

Mateo cerrou os punhos sobre a mesa.

“Você não sabe de nada.”

“Já chega.”

“Você não tem o direito de vir aqui me julgar!” gritou Mateo. “Você nos abandonou. Deixou minha mãe carregar tudo. Você é a…” Ninguém para culpar por eu estar assim.

Roberto respirou fundo.

“Sim. Eu fui embora. E isso foi covardia. Mas eu não coloquei a sua mão no rosto da sua mãe.”

A frase caiu como um balde de água fria.

Mateo desviou o olhar, furioso.

“Ela sempre se faz de vítima.”

Então Elena colocou a concha sobre a mesa.

“Não, Mateo. Eu me tornei forte. O fato de você interpretar isso como permissão para me destruir é outra história.”

Ele se levantou abruptamente.

“Estou indo embora.”

“Não”, disse Roberto. “Ainda tem outra pessoa.”

Mateo franziu a testa.

Nesse instante, a campainha tocou.

Elena foi até a porta. Da mesa, Mateo vislumbrou uma mulher na casa dos quarenta, com os cabelos presos, segurando uma pasta. Ao lado dela estava uma jovem, vestindo um colete do DIF (Departamento de Serviços Familiares) municipal.

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