Quando levantei a faca para cortar o bolo de casamento, minha irmã me abraçou forte e sussurrou: “Vamos! Agora!” Olhei para ela e depois para meu noivo sorridente.

Aceleramos pela estrada asfaltada em direção ao estacionamento dos funcionários. O velho e surrado sedã de Sarah estava estacionado bem perto da saída, virado para fora. Ela estava preparada para isso.

“Entra!” Ela me empurrou para o banco do passageiro e pulou para o banco do motorista.

Ela mexia nas chaves. Olhei pela janela. Um dos mercenários corria em nossa direção, com o cassetete em punho.

“Sarah!” Gritei.

O homem chegou ao carro no exato momento em que o motor roncou. Ele brandiu o cassetete e quebrou o vidro do passageiro. Estilhaços de vidro por toda parte. Gritei, cobrindo o rosto.

Sarah pisou no acelerador. O carro disparou para a frente, a porta aberta atingindo o mercenário e o lançando na escuridão. Saímos em disparada do estacionamento, os pneus fumegando, deixando o pesadelo para trás.

Dirigimos em silêncio por dez minutos; Sarah ziguezagueava pelo trânsito como uma piloto acrobática, olhando constantemente pelo retrovisor. O vento uivava pela janela estilhaçada, gelando-me até os ossos.

“Por quê?”, sussurrei finalmente, tirando os cacos de vidro do meu cabelo. “Por que ela fez isso? Por que me chamou de fonte de informação?”

Sarah não disse nada. Ela se abaixou debaixo do banco e tirou uma pasta de papelão e um pequeno gravador de voz digital. Jogou-os no meu colo.

“Eu entrei escondida no escritório dela hoje de manhã”, disse Sarah, com a voz seca e áspera. “Eu sabia que tinha algo de errado com essas ‘viagens a negócios’ dela. Escuta.”

Apertei o play. O áudio estava granulado, gravado por uma falha oculta.

Voz de David: “Não se preocupe, chefe. A dívida está paga hoje à noite. Ela é perfeita. Artista, sem laços familiares significativos, histórico médico impecável. E como ela é minha esposa em todos os sentidos da palavra, ninguém vai dar como desaparecida quando formos para nossa ‘lua de mel’”.

Voz desconhecida (distorcida): “E o parto?”

David: “Hoje à noite. O bolo está recheado de ketamina. Ela vai desmaiar na recepção. Vou levá-la para a suíte nupcial para ‘se recuperar’. Você vai na caminhonete. Pode cruzar a fronteira com ela amanhã de manhã. Colha os órgãos dela ou venda-a para bordéis no Leste Europeu, não me importo. Só pague minha dívida de 5 milhões de dólares.”

O registro foi concluído com um único clique.

Fiquei ali sentado, paralisado. Minha mente tentava afastá-lo. As flores. A viagem a Paris. O jeito como ele olhava para as minhas pinturas.

Era tudo um investimento. Para ele, eu não era uma pessoa. Eu era gado. Eu era um cheque que ele descontou para se livrar dos agiotas.

“Ele… ele queria me vender?” gaguejei, sentindo um nó na garganta.

“Ele ia te matar, Maya”, disse Sarah, olhando para mim com lágrimas nos olhos. Ele não é nenhum príncipe. É um rato encurralado.

“Para onde vamos?” perguntei, enxugando o rosto. “Temos que nos esconder.”

“Não”, disse Sarah, com a mandíbula cerrada. “Não vamos mais nos esconder. Vamos para a delegacia.”

“Ele tem homens! Ele tem dinheiro!”

“E temos provas”, disse Sarah, apontando para uma pequena caixa térmica no banco de trás. “Eu não apenas gravei. Antes da cerimônia, entrei sorrateiramente na tenda do buffet. Roubei uma amostra de glacê lá de cima — aquela que era para você. Está naquela caixa térmica.”

Chegamos à delegacia. Entrei como uma noiva com um vestido rasgado e coberto de cacos de vidro, agarrando as provas do meu próprio plano assassino.

A polícia ouviu a gravação. Imediatamente testaram a amostra de metanfetamina. O kit de coleta ficou roxo escuro. O resultado foi positivo para níveis letais de ketamina.

De volta ao Grand Conservatory, David estava no meio de uma operação de controle de danos em grande escala. Em pé sobre uma cadeira, dirigiu-se aos convidados perplexos com uma expressão fingida de angústia.

“Sinto muito”, anunciou, com a voz trêmula de emoção fingida. “Minha querida Maya… ela teve um colapso nervoso. A pressão do casamento foi demais. Ela fugiu. Por favor, todos vão para casa. Preciso ir buscá-la.”

Ele estava tentando esvaziar o salão para que sua equipe pudesse nos encontrar.

Então, sirenes soaram.

Seis carros de polícia pararam bruscamente na entrada. Uma equipe da SWAT invadiu o local, arrombando as portas.

O capitão entrou na pista de dança, seguido por Sarah e por mim. Eu ainda estava com o vestido, mas já não parecia uma vítima.

David me viu. Por um instante, pareceu aliviado, pensando que seus homens tinham me capturado. Então, viu a polícia.

Ele tentou bancar o bonzinho mais uma vez. Correu em minha direção, com os braços estendidos. “Maya! Oh, graças a Deus! Querida, você está bem? Você teve um derrame…”

Dei um passo à frente. O silêncio tomou conta do salão.

Não gritei. Não chorei.

Aproximei-me dele. Ele cheirava a suor e medo.

Levantei a mão e lhe dei um tapa. Um som seco e seco ecoou pelo corredor.

“O show acabou, David”, eu disse, com a voz firme e fria. “Sua dívida está paga.”

Sim. Mas você vai pagar por isso com vinte anos de prisão federal.

Os agentes o cercaram. Derrubaram-no no chão e algemaram suas mãos atrás das costas. Seus mercenários estavam reunidos nas saídas.

Enquanto o arrastavam, ele olhou para mim, sua máscara escorregando, revelando o homem vazio e patético por baixo. “Eu te amei”, mentiu desesperadamente.

“Não”, eu disse. “Você gostou do preço.”

O sol nascia sobre o oceano enquanto estávamos sentados na praia, a poucos quilômetros da delegacia. Tínhamos acendido uma pequena fogueira com pedaços de madeira à deriva.

Fiquei perto do fogo, tremendo com o frio da manhã. Tirei meu vestido de noiva esfarrapado. Era pesado, carregado com a mentira que eu havia vivido.

Joguei-o nas chamas.

A seda pegou fogo instantaneamente, enrolou-se e escureceu; a renda virou cinzas. Observei meu conto de fadas queimar.

Sarah se aproximou e me envolveu com um grosso cobertor de lã. Então ela me abraçou.

Apoiei a cabeça em seu ombro, observando a fumaça subir.

“Sabe”, sussurrei, “pensei que você estivesse com ciúmes. Pensei que odiasse a minha felicidade.”

Sarah sorriu, um sorriso cansado e triste. Ela apertou meu ombro.

“Eu nunca quis que você fosse infeliz, Maya”, disse ela. “Eu só queria que você estivesse viva. Eu não preciso de um príncipe para você. Eu só preciso da minha irmã.”

Ficamos sentadas ali, observando o sol dissipar a névoa. O conto de fadas era uma mentira, uma armadilha armada por um monstro de smoking. Mas, ao segurar a mão da minha irmã, percebi que tinha algo melhor do que um conto de fadas.

Eu sabia a verdade. E tinha a única pessoa disposta a destruir o mundo inteiro para me salvar.

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