Eu não esperava uma festa. Esperava um resultado.
“Vamos lá, querida”, David sussurrou, baixando a voz e perdendo o calor que demonstrara em público. Ele apertou a minha mão com mais força, até a pressão se tornar dolorosa. “Corte direito. Mal posso esperar para você dar a primeira mordida. A cobertura é… especial.”
Sua mão estava quente e pesada. Não era um carinho; era uma corrente. Olhei em seus olhos novamente. Aquele azul gélido não era mais bonito; estava morto, desprovido de humanidade, como o de um tubarão.
O aviso de Sarah ecoou na minha cabeça. Empurre.
Não pensei. Deixei o instinto assumir o controle.
Em vez de pressionar a faca, transferi meu peso. Apoiei o quadril no carrinho de prata e empurrei com toda a minha força.
ACIDENTE.
O estrondo foi ensurdecedor. A torre de bolo de sete andares oscilou por um instante antes de desabar no chão de mármore. A porcelana estilhaçou-se. Grossas camadas de bolo e creme explodiram, respingando nos convidados da primeira fila. Folhas de ouro e glacê branco cobriram meu vestido impecável e o smoking caro de David.
Um silêncio absoluto e atônito tomou conta do salão. O quarteto de cordas parou no meio de uma nota.
David ficou imóvel, congelado. Uma gota de glacê escorreu por sua bochecha. Sua máscara de refinamento desapareceu instantaneamente, substituída por uma contorção de pura e incontrolável fúria.
“Sua vadia estúpida!”, ele rugiu, erguendo a mão como se fosse me bater ali mesmo no palco.
Sarah não esperou. Tirou os sapatos de salto alto. Agarrou meu pulso com força.
“CORRA!”
Fugimos. Duas irmãs, descalças, correndo sem fôlego pelas ruínas de um conto de fadas. Escorregamos no gelo, escalamos os escombros e corremos não em direção à saída principal, mas sim em direção à entrada de serviço que Sarah tinha visto antes.
“Parem eles!” David gritou atrás de nós. Não era a voz de um tratador de cavalos. Era a ordem de um general.
Arrombamos as portas duplas e invadimos a cozinha, assustando os cozinheiros. Sarah não diminuiu o passo. Empurrou um suporte cheio de panelas e frigideiras atrás de nós, criando uma barricada de metal.
“Sarah, o que está acontecendo?!” exclamei, puxando meu vestido arruinado.
“Corram!”
Atrás de nós, as portas da cozinha se abriram de repente.
Suas verdadeiras cores: David estava lá. Ele não estava preocupado com a esposa. Tirou um rádio tático do bolso do smoking.
“Alerta vermelho!” ela gritou no aparelho. “O alvo está fugindo! Isolem o perímetro! Quero eles vivos! Quebrem as pernas deles se for preciso, mas deixem os rostos intactos!”
O recurso.
Os supostos seguranças posicionados ao redor do complexo — homens que eu presumi terem sido contratados para controlar a multidão — sacaram suas armas. Não eram pistolas, mas sim tasers e bastões extensíveis. Não eram seguranças. Eram mercenários.
“Por aqui!” Sarah me arrastou para fora da doca de carga dos fundos. O ar frio da noite atingiu meu rosto.