Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Ela se assustou. O bebê se mexeu no outro quarto e depois ficou quieto novamente.
Respirei fundo.
Eu te mando dinheiro todo mês. Aqui está um pouco de comida. Minha mãe deveria cuidar de você. Então, por que você está comendo isso?
Lily apertou os lábios e, finalmente, uma lágrima escorreu.
“Porque…” ela murmurou, “…é tudo o que me deixam comer.”
Tudo parou.
“O quê?”
Ela fechou os olhos.
“Sua mãe diz que eu não devo comer muito depois que der à luz. Ela diz que se eu comer demais, meu leite ficará ‘forte demais’ para o bebê.”
Minha mente ficou em branco.
“Então ela guarda a melhor comida”, Lily continuou suavemente. “Ela diz que é para você porque você trabalha muito… e para ela também porque ela é mais velha.”
Um nó se formou na minha garganta.
“E você?”
Ela apontou para o prato. “Às vezes… eu fico com as sobras.”
Encarei-a novamente.
Os ossos.
As migalhas.
E, de repente, me lembrei de cada ligação.
“Sua esposa está ótima. Está se alimentando bem. Está descansando.”
Um arrepio percorreu meu corpo.
“Há quanto tempo?”, perguntei.
Ela hesitou. “Desde que voltei do hospital.”
Um mês.
Um mês inteiro.
Durante um mês, achei que ela estava sendo bem cuidada.
Durante um mês, minha mãe ficou com o meu dinheiro.
Durante um mês, minha esposa comeu… sobras.
Cerrei os punhos.
“Por que você não me contou?”
Lily ergueu o olhar, com medo nos olhos.
“Porque… ela é sua mãe.”