Ele a ensinou a linguagem do vento: a diferença entre o sussurro dos álamos e o farfalhar seco do eucalipto. Ele lhe trazia ervas silvestres, guiando seus dedos sobre as folhas serrilhadas da hortelã e a casca aveludada da sálvia. Pela primeira vez na vida, a escuridão não era uma prisão; era uma tela.
Ela se pegava ouvindo o ritmo de seu retorno a cada noite. Ela se pegava estendendo a mão para tocar o tecido áspero de sua túnica, seus dedos parando na batida constante de seu coração. Ela estava se apaixonando por um fantasma, um homem definido por sua pobreza e sua bondade.
Mas as sombras sempre se alongam antes de desaparecerem.
Numa terça-feira, encorajada por sua recém-descoberta independência, Zainab levou uma cesta até os arredores da aldeia para colher vegetais. Ela conhecia o caminho: quarenta passos até a grande pedra, uma curva acentuada à esquerda quando sentiu o cheiro do curtume, e então em frente até o ar refrescar junto ao riacho.
“Olha isso”, sussurrou uma voz. Era uma voz como vidro quebrando. “A rainha dos mendigos saiu para passear.”
Zainab congelou. “Aminah?”
Sua irmã invadiu seu espaço pessoal; o aroma da cara água de rosas era enjoativo e sufocante. “Você está patética, Zainab. Sério. Pensar que você trocou uma mansão por uma cabana de barro e um homem que cheira a esgoto.”
“Estou feliz”, disse Zainab, com a voz trêmula, mas confiante. “Ele me trata como se eu fosse feita de ouro. Algo que nosso pai nunca entendeu.”
Aminah riu, uma risada aguda e estridente que assustou um corvo próximo. “Ouro? Oh, sua pobre e ingênua tola. Você acha que ele é um mendigo porque é pobre? Você acha que isso é algum romance trágico?”
Aminah se inclinou para mais perto, sua respiração quente contra a orelha de Zainab. “Ele não é um mendigo, Zainab.” É penitência. Ele é o homem que perdeu tudo numa aposta que não podia ganhar. Ele não fica com você por amor. Ele fica com você porque está se escondendo. Ele usa sua cegueira como disfarce.”
O mundo silenciou. Os sons dos pássaros, da água, do vento — tudo se dissipou, substituído por um rugido nos ouvidos de Zainab. Ela cambaleou para trás, sua bengala batendo numa raiz, quase desabando.
“Ele é um mentiroso”, sussurrou Aminah. “Pergunte a ele sobre o Grande Incêndio do Leste. Pergunte por que ele não pode aparecer na cidade.”
Zainab fugiu. Ela não usou a bengala; correu por instinto e em agonia, encontrando o caminho de volta para a cabana com os pés em desespero. Sentou-se na escuridão por horas, a terra fria penetrando em seus ossos.
Quando Yusha voltou, o ar estava diferente. O cheiro de fumaça de lenha agora cheirava a engano queimado.
“Zainab?” “O que aconteceu?” Ela perguntou, percebendo a mudança. Colocou um pequeno pacote sobre a mesa: talvez pão, ou um pouco de queijo.
“Você sempre foi um mendigo, Yusha?”, perguntou. Sua voz era oca, como um caniço farfalhando ao vento.
O silêncio que se seguiu foi longo e pesado, carregado de palavras não ditas.
“Eu já te disse uma vez”, disse ela, sua voz desprovida de seu calor poético. “Nem sempre.
Minha irmã me encontrou hoje. Ela me disse que você é uma mentira. Ela me disse que você está se escondendo. Que você me usa — minha escuridão — para se manter nas sombras. Diga-me a verdade. Quem é você? E por que está nesta cabana com uma mulher que você foi pago para levar?”
Ela o ouviu se mexer. Não para longe dela, mas para mais perto. Ele se ajoelhou a seus pés, os joelhos batendo no chão duro com um baque surdo. Pegou as mãos dela nas suas. Elas tremiam.
“Eu era médico”, sussurrou ele.
Zainab recuou, mas ele a segurou.
Anos atrás, houve um surto na cidade. Uma febre. Eu era jovem, arrogante. Pensei que poderia curar a todos. Trabalhei até a exaustão. Cometi um erro, Zainab. Um erro de cálculo com uma tintura. Eu não matei uma estranha. Matei a filha do governador da província. Uma garota não mais velha que você.
Zainab sentiu o ar sumir do quarto.
“Eles não apenas me destituíram do meu título”, continuou Yusha, com a voz embargada. “Eles queimaram minha casa. Me declararam morto para o mundo. Tornei-me um mendigo porque era a única maneira de desaparecer. Fui à mesquita em busca de uma forma de morrer lentamente. Mas então seu pai apareceu.” Ele falou de uma filha que era “inútil”. Uma filha que era uma “maldição”.
Ele pressionou as mãos contra o rosto dela. Ela sentiu a umidade de suas lágrimas; não as suas, mas as dele.
Eu não a adotei por dinheiro, Zainab. Eu a adotei porque, quando ele a descreveu, percebi que éramos iguais. Éramos ambos fantasmas. Eu pensei… pensei que, se eu pudesse protegê-la, se eu pudesse lhe mostrar o mundo através das minhas palavras, talvez eu pudesse recuperar minha alma. Mas então me apaixonei pelo fantasma. E isso nunca fez parte do plano.
Zainab congelou. A traição estava lá, sim — a mentira sobre sua identidade —, mas estava envolta em uma verdade muito mais dolorosa. Ele não era um mendigo por destino; era um mendigo por escolha, um homem vivendo em um purgatório autoimposto.
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