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PARTE 3:
Eu não respirava.
Peguei a carta, o pen drive e o atiçador de latão que estava perto da lareira. Meus dedos tremiam tanto que quase deixei tudo cair. Passos lentos e deliberados ecoaram pelo corredor, como se quem estivesse entrando conhecesse a casa perfeitamente.
Tranquei-me no escritório e destranquei a porta.
“Ana Lucía”, cantou Claudia do outro lado. “Eu sei que você está aí.”
Minha voz falhou, mas forcei minhas mãos a se moverem. Abri o laptop do meu pai, conectei o pen drive e esperei.
A tela exibia pastas organizadas por data.
“Cozinha.”
“Laboratório.”
“Transferências.”
“Claudia.”
Abri a primeira.
Era um vídeo em preto e branco, filmado de um ângulo alto na cozinha. Meu pai estava sentado na ilha da cozinha, magro, vestindo um jaleco azul, com um jornal à sua frente. Claudia entrou com uma xícara. Ela olhou para o corredor, tirou um pequeno frasco da bolsa e despejou algumas gotas transparentes no chá.
Então, mexeu.
Então, sorriu.
Então, beijou a testa do meu pai como a esposa mais amorosa do mundo.
Cobri a boca para não gritar.
Abri outra pasta. Havia exames de sangue particulares, e-mails com um médico em Guadalajara, recibos de laboratório e anotações escritas pelo meu pai. Digitalis. Doses baixas. Deterioração gradual. Sintomas que poderiam ser confundidos com insuficiência cardíaca.
Ele sabia disso.
Meu pai sabia que estavam o matando.
E mesmo assim, ele ficou tempo suficiente para reunir provas e me proteger.
A maçaneta da porta do escritório girou.
“Abra a porta”, disse Claudia, com um tom agora monótono. “Não me faça arrombar a fechadura.”
“Saia da minha casa.” — Sua casa… — ela zombou. — Você ainda está falando como uma pirralha mimada. Arturo me prometeu que havia dinheiro escondido nesta casa. Um fundo de emergência. Está nas paredes, não é? Na chaminé.
Então eu entendi. Ela não tinha vindo por mim.
Ela tinha vindo pelo que achava que meu pai havia escondido: dinheiro.
Enxuguei as lágrimas, enfiei a carta no bolso do casaco e apertei o pen drive com força. Então abri a porta.
Cláudia estava lá, com uma chave de fenda na mão. Por um segundo, ela sorriu vitoriosa, até ver o atiçador de lareira.
— Você estava certa — eu disse a ela. — Papai escondeu alguma coisa na chaminé. Mas não era dinheiro.
Mostrei o pen drive.
— Era você.
O rosto dela empalideceu.
— O que é isso?
— Vídeos. Contas. E-mails. Análises. Registros de transferência. Há também provas de como você transferiu dinheiro das empresas do meu pai para contas em nome de laranjas.
“Você está inventando isso.”
“Há um vídeo seu colocando veneno no chá.”
O silêncio se tornou pesado.
Pela primeira vez desde que a conheci, Claudia não sabia o que dizer. A mulher elegante, a viúva impecável, a socialite que todos cumprimentavam na missa, havia desaparecido. Diante de mim estava alguém encurralado.
“Arturo estava doente”, ela sussurrou. “Eu apenas acelerei o inevitável.”
Senti algo dentro de mim se quebrar.
“É assim que você justifica matar um homem que confiava em você?”
“Eu cuidava dele!” ela gritou. “Eu tolerava suas histórias, suas manias, sua filha sempre por perto. Você sabe o quanto eu sacrifiquei? Eu merecia aquela casa.”
“Você nem merecia o sobrenome dele.”
Cláudia deu um passo em minha direção.
“Me dê essa lembrança.”
“Benjamin tem cópias.”
Era parcialmente verdade. Meu pai havia deixado instruções para duplicar tudo caso o testamento fosse contestado. Eu não sabia quantas cópias existiam, mas Claudia não tinha como verificar.
“Mentiroso.”
“Os compradores já desistiram. Suas contas serão auditadas. E depois disso, eles não vão processá-lo apenas por fraude. Vão investigá-lo por homicídio.”
Seus olhos se encheram de ódio.
“Você não sabe com quem está se metendo.”
“Sei sim. Com a mulher que matou meu pai.”
Ela avançou contra o memorial. Levantei o atiçador de lareira e ela recuou. Não a agredi. Eu não queria manchar as mãos do meu pai com o sangue dele. Eu queria justiça, não vingança.
Então meu celular tocou na mesa.
Era Benjamin.
Coloquei no viva-voz.
“Ana Lucia, a polícia está a caminho.” Recebi um alerta do sistema de backup do seu pai. Você está em casa?
Os olhos de Claudia se arregalaram.
“Sim”, respondi, ainda olhando para ela. “E Claudia também.”
Ela saiu correndo.
Desceu as escadas, atravessou o hall de entrada e fugiu em direção à sua Mercedes. Observei da janela enquanto ela dava ré, batia num vaso de barro e desaparecia pela rua molhada.
Quando tranquei a porta, o atiçador de lareira caiu no chão. Inclinei-me junto ao corrimão e chorei como nunca havia chorado, nem mesmo no funeral. Chorei pelo meu pai, pelo seu silêncio, pelo seu medo, por aquele último ano em que ele sorriu para mim, sabendo que cada xícara de café poderia aproximá-lo da morte.
A polícia chegou vinte minutos depois. Benjamin chegou logo em seguida, pálido, com uma pasta debaixo do braço. Entregamos o cartão de memória, as cartas, os resultados dos exames e os documentos do fundo fiduciário.
Não consegui dormir naquela noite. Ao amanhecer, a luz invadiu os vitrais da escadaria. Vermelho. Azul. Dourado. Como quando eu era criança e meu pai me dizia que a casa acordava vestida com suas melhores roupas.
Às nove, Benjamin me ligou.