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PARTE 2
Mal consegui sorrir. Os compradores já sabiam a verdade: Claudia não podia vender uma casa que não lhe pertencia. Meu pai a havia transferido para um fundo fiduciário três anos antes de se casar com ela, deixando-me como único beneficiário.
Lá fora, o céu ficou cinza. Eu estava no jardim, cortando rosas secas, quando a Mercedes branca de Claudia entrou na garagem, levantando cascalho como se quisesse dividir a entrada em duas.
Ela saiu furiosa, os saltos afundando na terra, uma pasta amassada apertada na mão.
“Você é uma cobra!”, gritou ela. “Você e aquele advogado me armaram uma cilada!”
Continuei cortando um galho seco. Pessoas como Claudia odeiam não receber uma resposta imediata.
“Do que você está falando?”
Ela jogou os papéis no meu peito.
“O fundo fiduciário. Aquela bagunça ilegal que eles inventaram para roubar o que é meu por direito.”
“Não inventamos nada. Papai assinou quando ainda estava bem.”
Pela primeira vez, vi medo em seus olhos.
“Arturo jamais teria feito isso comigo. Ele me amava.”
“Papai te conhecia melhor do que você imagina.”
Seu rosto endureceu.
“Você não sabe nada sobre seu pai.”
“Eu sei que ele protegia a casa. E sei que você tentou vender algo que não era seu.”
Cláudia se aproximou tanto que pude sentir o cheiro de seu perfume caro, carregado de raiva.
“Seu pai não era o santo que todos pensam que ele era.”
“Nem pense nisso.”
“Você acha mesmo que ele morreu por acaso? Acha que o coração dele simplesmente parou?”
Senti o chão tremer sob meus pés.
“O que você está dizendo?”
Ela sorriu, mas não era mais um sorriso elegante. Era cruel.
“Estou dizendo que esta casa guarda segredos. Segredos que podem manchar para sempre o nome de Arturo Salgado.” E se você não assinar a transferência da propriedade para mim amanhã, vou garantir que todos saibam o que ele estava escondendo.
Então ela se virou e saiu, deixando as rosas tremendo ao meu redor.
Entrei e tranquei a porta. Minhas mãos estavam geladas. Meu pai estava doente havia oito meses. Os médicos falaram de uma estranha, rápida e devastadora deterioração cardíaca. Eu aceitei porque não tinha outra explicação.
Liguei para Benjamin novamente.
“Claudia acabou de insinuar que meu pai não morreu de causas naturais.”
Ele permaneceu em silêncio por tempo demais.
“Ana Lucía, seu pai me pediu para investigar Claudia antes de morrer.”
“O quê?”
“Ele não foi o primeiro marido dela. Foi o terceiro. Os dois anteriores morreram após problemas de saúde repentinos. Ambos deixaram propriedades e apólices de seguro. Arturo foi o primeiro a deserdá-la legalmente.”
Arfei.
“Você está dizendo que ela os matou?”
“Estou dizendo que existe um padrão. E seu pai sabia disso. Ele também me disse que, se algo lhe acontecesse, você encontraria uma ‘chave’ dentro de casa.”
A lareira.
Corri para o escritório. Revirei gavetas, livros, quadros, a escrivaninha, o globo terrestre. Nada. Naquela noite, exausta, sentei-me em frente à lareira quase apagada e passei os dedos pelos tijolos.
Um deles, no canto inferior direito, se moveu.
Empurrei-o.
Ouvi um clique.
Atrás dele havia um compartimento secreto com um envelope e um pen drive prateado. O envelope tinha meu nome, escrito com a caligrafia firme do meu pai.
Abri-o, tremendo.
“Minha filha: se você está lendo isto, Claudia já tentou tomar a casa. Perdoe-me por não ter lhe contado antes. Ela estava me observando de perto demais. Minha doença não era natural. Descobri a verdade há um ano.
Ela está me envenenando.” A carta caiu das minhas mãos.
E então ouvi a porta da frente abrir.
Alguém tinha acabado de entrar na casa.
PARTE 3: Para mais informações, continue para a próxima página.