ANÚNCIO
PARTE 1
“Vendi a casa do seu pai para que você finalmente aprendesse o seu lugar.”
Essa foi a primeira coisa que Claudia me disse quando atendi o telefone naquela terça-feira de manhã.
Nem um “bom dia”. Nem um “Como vai, Ana Lucía?”. Nada.
Sua voz era calma, quase doce, como se ela tivesse acabado de ganhar uma aposta que planejava há anos. Eu estava sentada na cozinha, com uma xícara de café feita em uma cafeteira de barro, observando o sol entrar pelas janelas de vitral da escada, pintando o piso antigo com manchas vermelhas, azuis e douradas.
A casa cheirava a madeira velha, torrada e buganvílias que meu pai havia plantado perto do pátio. Era uma casa grande em San Ángel, daquelas com pedra de pedreira, azulejos de Talavera, corrimãos esculpidos e portas que rangem como se guardassem segredos. Foi lá que eu cresci. Ali, meu pai, Arturo Salgado, me ensinou a andar de bicicleta no corredor, a ler perto da lareira e a nunca menosprezar ninguém.
E Claudia acabara de me dizer que a havia vendido.
“Qual casa?”, perguntei, embora soubesse perfeitamente de qual ela estava falando.
Ela deu uma risadinha seca.
“Não se faça de desentendida. A casa onde você tem vivido como uma rainha desde que seu pai morreu. Já assinei tudo. Os novos donos se mudam semana que vem. Eles querem começar a reforma imediatamente.”
Reforma.
Na boca de Claudia, essa palavra significava destruição.
Três meses antes, logo após o funeral do meu pai, ela havia contratado operários para arrancar o piso de madeira, derrubar as estantes embutidas e cobrir os vitrais com painéis cinza “mais modernos”. Ela queria transformar a casa em uma espécie de clínica de luxo com luminárias frias, mármore falso e móveis sem alma.
Parei em frente aos operários e disse-lhes que ninguém podia tocar em uma única parede.
Cláudia nunca me perdoou por aquela humilhação.
“E você tem certeza de que está tudo em ordem?”, perguntei, pousando minha xícara na bancada de madeira.
“Claro que está, sua insolente. Eu era a esposa dele. A escritura estava em nome de Arturo. Você pode ser a filhinha querida dele, mas eu também tenho direitos. Talvez agora você aprenda a respeitar os mais velhos.”
Fechei os olhos por um segundo.
Não por medo.
Mas para não sorrir.
Cláudia não sabia que, alguns dias depois do enterro, eu tive uma reunião particular com o advogado Benjamín Rivas, o advogado de confiança do meu pai. Em um escritório no centro da cidade, cercada por pastas lacradas e documentos que ela nunca tinha visto, Benjamín explicou que meu pai havia preparado tudo muito antes de morrer.
Um testamento.
Cláusulas à prova de falhas.
Provas.
E uma instrução bem clara: se Claudia tentasse vender a casa, a armadilha seria ativada automaticamente.
“Espero que você tenha conseguido um bom preço”, eu disse a ela.
“Não se preocupe com o dinheiro. Preocupe-se com a mudança. Quero as chaves na mesa da cozinha até sexta-feira.”
“Obrigada por me avisar.”
Desliguei antes que ela pudesse se divertir mais.
A cozinha ficou em silêncio. Apenas a geladeira zumbia e, lá fora, um vendedor de tamales anunciava sua chegada. Peguei meu celular e liguei para Benjamin.
Ele atendeu no segundo toque.
“Ana Lucia”, disse ele calmamente. “Eu estava me perguntando quando a paciência dela ia acabar.”
“Acabou. Ela assinou o contrato de compra e venda.”
Houve uma breve pausa.
“Então, vamos começar.”
“Não quero que os compradores percam dinheiro por causa dela.”
“Já estou entrando em contato com o advogado dela. Não se preocupe.” Seu pai previu isso.
Depois de desligar o telefone, caminhei pela casa como se precisasse me despedir de cada canto, mesmo sabendo que não ia a lugar nenhum. Passei a mão pelo corrimão que meu pai havia lixado durante semanas. Entrei em seu escritório, que ainda cheirava a couro, cedro e café. Olhei para a lareira de tijolos, a mesma onde ele passava horas lendo em silêncio.
Então, bateram na porta.
Três batidas fortes.
Não era Claudia. Era cedo demais.
Abri a porta e encontrei um homem de terno escuro segurando um envelope amarelo.
“Ana Lucía Salgado?”
Assenti.
“A senhora foi notificada.”
Ao abrir o envelope, meu sangue gelou.
Claudia não apenas tentara vender a casa. Ela também entrara com um processo para bloquear minhas contas bancárias, acusando-me de roubar dinheiro da herança do meu próprio pai.
A guerra não tinha acabado de começar.
Tinha acabado de se tornar imperdoável. Enquanto segurava aqueles papéis com força nas mãos, ouvi um barulho vindo da chaminé, como se algo tivesse caído atrás dos tijolos.
Eu não conseguia acreditar no que estava prestes a acontecer…
Encarei a chaminé por alguns segundos, a intimação judicial em uma das mãos, meu coração disparado. Meu pai sempre dizia que uma casa antiga fala, mas só quando você está pronto para ouvir.
Ainda não verifiquei nada. Primeiro, liguei para Benjamin.
“Claudia acabou de bloquear minhas contas”, eu disse a ele.
A voz dele mudou de tom.
“Isso significa que ela está desesperada. Ela quer tirar seus recursos antes que você possa se defender.”
“Ela pode fazer isso?”
“Não com os documentos que temos. Mas preciso que você não assine nada, não saia sozinha e não a confronte.”