Parte 3: Rodrigo achou que era uma ameaça. Homens acostumados a serem servidos muitas vezes confundem o cansaço de uma mulher com uma birra passageira. No dia seguinte, ele saiu cedo, certo de que, ao voltar, encontraria uma refeição quente e uma esposa arrependida. Mas, quando retornou, encontrou minha metade do armário vazia, meus documentos do lado de fora da casa e uma cópia dos recibos sobre a mesa. Encontrou também um bilhete: “Não fui embora porque não sabia cozinhar. Fui embora porque não quero mais viver onde minha fome, meu trabalho e minha dignidade são motivo de chacota.”
Passei duas semanas na casa da minha irmã. Não foi fácil. Chorei, sim. Senti falta das minhas plantas, da minha cama, até da caneca lascada da qual eu tomava café. Mas não senti falta do medo de ouvir a porta abrir e não saber se Rodrigo estava chegando de bom humor ou querendo me humilhar. Meu advogado revisou tudo: pagamentos, recibos, transferências, mensagens, gravações de áudio. Eu não tinha uma fortuna escondida nem um plano perfeito. Eu tinha algo mais poderoso: perseverança. A pequena verdade de cada bilhete guardado.