PARTE 2
“Solta ela, mãe.”
A voz de Alejandro não era alta, mas tinha um tom cortante que fez Rebeca puxar a mão para trás como se ele a tivesse queimado. Valentina correu para se esconder atrás das pernas de Mariana, agarrando seu coelho. Os lábios de Mariana estavam cerrados com força, não por submissão, mas porque ela estava fazendo de tudo para não perder o único emprego estável que conseguira em anos. Rebeca se endireitou, ofendida, como se tivesse acabado de ser humilhada na frente dos funcionários. “Você está falando comigo assim de uma empregada?”, perguntou. O rosto de Alejandro ainda estava coberto com a maquiagem infantil. Em outras circunstâncias, teria sido uma visão ridícula. Naquele cômodo, porém, parecia algo muito mais profundo: um homem poderoso preso entre a máscara que sua família exigia e uma pequena, incômoda e luminosa verdade que acabara de se sentar no chão com um pincel. “Nunca mais toque naquela garota”, disse ele. Rebeca soltou uma risada seca. “Eu avisei.” Primeiro deixaram ela trazer a filha, depois a menininha começou a correr pela casa, aí tentaram fazer você sentir pena dela, e antes que você percebesse, a mãe estava chorando no seu escritório implorando por dinheiro. Mariana sentiu a dor daquelas palavras, mas não respondeu. Ela havia aprendido que, às vezes, dignidade significava não dar explicações a quem já havia decidido desprezá-la. Alejandro olhou para Mariana. “Valentina me pintou porque achou que eu estava triste?” Mariana engoliu em seco. “Sim. Ela não entende hierarquias, senhor. Ela só viu… alguma coisa.” Rebeca a interrompeu. “O que ela viu foi uma oportunidade. E você está tão sozinho que nem percebe.” Aquela frase atingiu o alvo com uma precisão cruel. Alejandro piscou. Mariana baixou o olhar, não porque concordasse, mas porque entendeu que Rebeca havia tocado em uma ferida aberta. Alejandro voltou para o espelho. Ficou se encarando por um longo tempo. Ninguém sabia o que ele estava pensando. Talvez ele se lembrasse da morte do pai quando era adolescente. Talvez se lembrasse da ex-namorada vendendo sua vida privada. Talvez se lembrasse do primo roubando suas assinaturas. Ou talvez, pela primeira vez em anos, ele parasse de se lembrar e simplesmente se visse: um homem de 28 anos, imensamente rico, profundamente sozinho, com um sol amarelo pintado na bochecha por uma garotinha que não queria nada com ele. De repente, Alejandro caiu na gargalhada. Não era uma risada elegante. Era uma risada quebrada, molhada, genuína. Valentina espiou por trás da mãe. “Gostou?” Alejandro enxugou uma lágrima sem tirar a tinta. “Acho que nunca estive tão bonito.” A garotinha sorriu. Mariana levou a mão à boca. Rebeca, por outro lado, ficou vermelha de raiva. “Os Garzas vêm hoje à noite, Federico vem, gente importante vem. Você não pode deixar que pensem que esta casa virou uma creche.” Alejandro se virou para ela. “O jantar continua.” “Então diga a essa mulher para levar a menina embora.” “Não.” A resposta foi tão imediata que Mariana ergueu o olhar. Os olhos de Rebeca se arregalaram. “Como assim?” “Eu disse não.” Mariana ia terminar seu trabalho e Valentina ficaria onde estava. Rebeca rangeu os dentes. “Você está cometendo um erro. Aquela mulher não é do seu mundo.” “Você também não conhece o meu mundo, mãe. Você só conhece o meu dinheiro.” O silêncio era ensurdecedor. Durante anos, ninguém naquela casa havia dito em voz alta o que todos estavam pensando. Rebeca morava na mansão parte do tempo, organizava jantares, decidia quais famílias eram adequadas, quais mulheres podiam se aproximar de Alejandro e quais funcionários deveriam ficar “em seus lugares”. Para ela, seu filho não era apenas um homem: era um nome, uma fortuna, uma vitrine que não deveria ser manchada. Naquela tarde, enquanto Mariana dava os retoques finais e Valentina pintava em uma pequena mesa perto da cozinha, Alejandro não removeu a tinta imediatamente. Ele atendeu a dois telefonemas com uma borboleta pousada na testa. Quando um sócio perguntou se ele estava bem, respondeu: “Melhor do que nunca”. Mas Rebeca não ia ficar parada. Às 18h, antes da chegada dos convidados, ligou para Federico Rivas, primo de Alejandro e diretor financeiro da empresa. Federico sempre sorria, sempre abraçava com muita força e sempre falava de lealdade quando o assunto era dinheiro. Ele chegou de terno escuro com uma expressão fingida de preocupação. Rebeca o levou para a sala de jantar e contou tudo, exagerando cada detalhe: que a empregada havia invadido a privacidade de Alejandro, que a moça era manipuladora, que Mariana certamente estava tentando se manter próxima da fortuna. Federico ouviu em silêncio e então disse algo que fez Rebeca estremecer. “Talvez possamos usar isso.” “Usar como?” Federico olhou para a sala de estar, onde Alejandro estava agachado, ouvindo Valentina explicar por que borboletas não deveriam ser pintadas tristes. “Se pudermos provar que Alejandro é emocionalmente instável, o conselho poderá limitar certas decisões. O projeto Polanco ainda não foi finalizado.” “Você está falando em declarar meu filho legalmente incapaz?” “Estou falando em proteger o patrimônio da família.” Rebeca não respondeu. A ideia lhe parecia monstruosa… mas