Ele fingiu dormir para ver se a filha pequena de seu funcionário quebraria alguma coisa, mas a menina desenhou uma borboleta para ele e disse: “Você precisa de cores”. Enquanto todos riam, ele ligou discretamente para o advogado, pois aquele desenho revelava algo muito mais sério do que uma simples brincadeira.

PARTE 3

Alejandro ficou imóvel por vários segundos.

A chuva batia nas janelas da sala de jantar com uma insistência sutil, quase elegante, mas dentro da mansão, a atmosfera estava sufocante. Os convidados olhavam de Federico para Rebeca, de Rebeca para Mariana, de Mariana para a menina que segurava um coelho de pelúcia como se fosse a prova mais importante em um julgamento.

Federico foi o primeiro a reagir.

“Isso é um absurdo”, disse ele, rindo rápido demais. “Ela é só uma criança. Provavelmente ouviu alguma coisa e misturou com a brincadeira.”

Valentina apertou o coelho contra o peito.

“Não é brincadeira.”

Mariana ajoelhou-se ao lado dela, não para silenciá-la, mas para apoiá-la.

“Meu amor, o que você ouviu?”

A menina olhou para Alejandro. Sua voz tremia, mas era clara.

“A senhora disse que você estava louco porque deixou ela te pintar.” E o homem disse que assim poderiam tirar a assinatura dele… e a casa dele… e muito dinheiro.

Rebeca empalideceu.

O maxilar de Federico se contraiu.

Alejandro estendeu a mão.

“Mariana, esse gravador funciona?”

Mariana assentiu lentamente. Era um pequeno aparelho que ela usava para gravar listas quando tinha muitas tarefas: lavar a louça, toalhas de mesa, flores, roupa para lavar, compras. Valentina costumava brincar de entrevistadora com seu coelho de pelúcia usando-o. Mariana nem sabia que o carregava no bolso do bichinho.

“Sim, funciona”, respondeu ela. “Mas eu não sabia que ela o tinha. Juro.”

“Você não precisa jurar por nada.”

Alejandro pegou o gravador com cuidado. Seus dedos, acostumados a assinar contratos milionários sem tremer, pareciam mais humanos do que nunca desta vez.

Federico deu um passo em sua direção.

“Alejandro, você não vai levar a sério uma gravação feita por uma criança.”

“Vou levar a sério qualquer coisa que explique por que meu primo acessou o arquivo particular de um funcionário e o colocou na minha mesa em um jantar de negócios.”

Os convidados ficaram em silêncio. Um deles, um empresário mais velho de Monterrey, colocou o guardanapo ao lado do prato e recostou-se na cadeira, ouvindo atentamente.

Alejandro apertou o botão.

Primeiro, ouviu-se o ruído de fundo: passos, talheres, uma porta fechando. Então, a voz de Rebeca surgiu, baixa, mas reconhecível.

“Eu avisei. Aquela mulher está mexendo com ele como ninguém mais conseguiu. Alejandro está vulnerável.”

Em seguida, a voz de Federico:

“Não vulnerável. Vulnerável. Se conseguirmos fazer o conselho enxergá-lo como emocionalmente instável, posso solicitar uma avaliação de saúde mental. Dessa forma, podemos impedir a assinatura do contrato de fideicomisso e dar andamento ao projeto antes que ele altere os beneficiários.”

Alejandro ergueu o olhar.

Rebeca fechou os olhos.

A gravação continuou.

“E a empregada?” perguntou Rebeca.

“Estamos fazendo-a parecer uma oportunista. Mãe solteira, dívidas, filha pequena, muito próxima dele. Ninguém vai acreditar que ela é inocente. Todos acreditam no que querem acreditar sobre uma pobre mulher.”

Mariana sentiu um forte golpe no peito. Ela não chorou. Ainda não. Apenas pegou a mão de Valentina e permaneceu de pé com uma dignidade que fez vários convidados baixarem o olhar, envergonhados por não terem participado de nada.

Federico avançou em direção ao aparelho.

“Isso é um absurdo!”

Alejandro levantou a mão e os seguranças, que haviam aparecido discretamente na entrada, se aproximaram.

“Não dê mais um passo.”

“Eu sou da sua família”, cuspiu Federico.

“Não. Minha família não usa uma menina de três anos para inventar uma mentira contra a mãe dela.”

A frase atingiu Rebeca mais do que Federico.

Porque, no fundo, ela sabia que Alejandro não estava falando apenas daquela noite. Ele estava falando de anos. De uma infância protegida por aparências. De um pai morto que ela transformou em mito e instrumento. De todas as vezes que ela lhe disse que ele não podia confiar em ninguém, quando na verdade ela o estava ensinando a confiar apenas nela. De todas as mulheres que ele afastou, todos os amigos que ele desprezou e todos os funcionários que ele tratou como peças de mobília vivas.

“Alejandro”, disse Rebeca, com a voz embargada pela primeira vez, “eu só queria te proteger.”

Ele deu uma risada triste.

“Não, mãe. Você queria me controlar. Como se controla uma propriedade.”

Ninguém falou.

Valentina, que não entendia de conselhos de negócios nem de fundos fiduciários, olhou para Alejandro com preocupação.

“Ela está triste de novo?”

A pergunta era tão pura, tão inocente, que finalmente quebrou algo dentro dele.

Alejandro se agachou até ficar na altura dos olhos da garota.

“Um pouco”, admitiu.

Valentina remexeu em sua pequena mochila. Tirou uma folha de papel dobrada, amassada nos cantos, e entregou a ele.

Era o desenho que Federico tentara ridicularizar: Alejandro com asas de borboleta, um sol enorme no peito e uma casa cheia de flores ao seu redor. Em um canto, com letras tortas que Mariana o ajudara a praticar, estava escrito: “Feliz Sr. Ale”.

Alejandro não conseguiu se conter. Lágrimas caíram sem aviso.

Por anos, ele ouvira aplausos, discursos, elogios de investidores, entrevistas em que era chamado de visionário. Mas ninguém, absolutamente ninguém, jamais lhe desejara algo tão simples sem…

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