Durante três meses, a lateral da cama do meu marido cheirava a podre… Quando finalmente abri a gaveta, a verdade destruiu tudo.

“Esse cheiro estranho… Não sei. Um cheiro de mofo. Como se algo estivesse estragado.”

Miguel suspirou, daquele jeito que as pessoas cansadas fazem para dar um toque de drama à sua preocupação. “Ana, você já está tomando uma decisão.”

Você voltou para a cama, envergonhada pelo efeito imediato daquelas palavras. Você imaginou. Como se seus próprios sentidos tivessem te enganado. Como se aquela coisa que revirava seu estômago todas as noites só existisse porque sua mente havia vagado para a escuridão.

Mas seu corpo nunca acreditou nisso.

Seu corpo se tensionava toda vez que você se virava para o lado dele da cama. Você sabia que o cheiro se intensificava debaixo do travesseiro e no canto inferior do colchão, onde as pernas dele repousavam. Você notou que toda vez que ele se sentava primeiro, o cheiro se amplificava, espalhando-se pelos lençóis como tinta invisível na água.

Então você continuou limpando.

Você lavou o edredom tantas vezes que as costuras começaram a se soltar. Você passou o aspirador de pó no colchão. Num sábado, você arrastou a cama para o pátio e… a deixou sob o sol escaldante do Arizona, enquanto seus vizinhos espiavam por cima da cerca com uma curiosidade educada. Você esfregou a base da cama com água sanitária diluída, ajoelhou-se com uma lanterna sob os pés de limão, procurou por mofo, insetos, danos causados ​​pela água — enfim, qualquer sinal, mesmo o mais banal, que pudesse explicar o estado em que você estava vivendo.

Nada.

A parte de baixo da cama estava limpa.

A estrutura estava seca.

As paredes estavam em bom estado.

O cheiro deveria ter desaparecido.

Pelo contrário, ele se intensificava durante suas noites, como se seus esforços só o perturbassem.

A reação de Miguel também mudou.

No começo, ele te ignorava. Depois, começou a ficar irritado sempre que você tocava no assunto. “Não estou confuso. Não estou preocupado. Irritado.” Numa terça-feira, depois do jantar, quando você puxou os lençóis porque o cheiro tinha voltado, ele estava parado na porta, com a gravata frouxa e o maxilar cerrado.

“Por que você está fazendo isso agora?”

“Porque o quarto inteiro está com um cheiro ruim.”

“É só a roupa suja. Deixa pra lá.”

Você ergueu os olhos do lençol de baixo, surpresa com o tom seco da voz dele. “Só estou limpando.”

Ele se aproximou. “E eu estou te dizendo para parar de fazer tanto alarde por nada.”

Este deveria ter sido o seu primeiro momento de puro medo.

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