A primeira coisa que notei foi a luz da varanda.
Era o domingo seguinte, uma manhã ensolarada de outubro, e a luz da varanda do meu vizinho ainda estava acesa às nove horas. Ezra nunca a deixava acesa depois do nascer do sol. Ele era muito meticuloso com essas coisas, esses pequenos hábitos de um homem que morava sozinho há muito tempo.
Fiquei parada na porta de casa, jornal na mão, encarando a lâmpada amarela que brilhava à luz do dia. Algo parecia errado, mas me convenci de que ele provavelmente havia esquecido e mencionaria isso quando trouxesse as compras.
Voltei para dentro para terminar meu café e ler as manchetes, mas não conseguia me concentrar.
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Ao meio-dia, uma ambulância estava estacionada em frente à casa de Ezra. Quando saí, um vizinho do outro lado da rua confirmou o que eu já sabia: Ezra havia falecido enquanto dormia. Ele morreu em paz, me disseram. Ele tinha 84 anos e eu, 40.
Demorei um pouco no gramado depois que todos foram embora, olhando para a luz da varanda que alguém finalmente havia apagado. Claire me encontrou lá uma hora depois e não disse nada. Apenas pegou minha mão.
O funeral foi menor do que eu esperava. Bem menor.
Alguns conhecidos distantes estavam no fundo, um pastor cansado lia um livro gasto, e eu não parava de pensar que Ezra merecia uma sala com mais gente.
Do outro lado do corredor, um homem se destacava. Ele vestia um elegante terno escuro e não parava de olhar para o celular, rolando a tela com o polegar como se a cerimônia estivesse interrompendo algo importante.
Quando a cerimônia terminou, eu estava prestes a ir embora, mas o homem caminhou direto na minha direção.
“Você deve ser o cara do supermercado”, disse ele, estendendo a mão num gesto que parecia mais uma transação do que uma saudação. “Sou Marcus, sobrinho do Ezra.”
“Anthony”, respondi. “Sinto muito pela sua perda.”
Ele me deu um pequeno sorriso.
“Claro. Mais de uma década de visitas aos domingos, hein? É muito tempo livre para se dedicar a um velho.”
Senti meu maxilar se contrair, mas mantive o tom firme.
“Ele era meu amigo.”
“Que bom”, disse Marcus, olhando por cima do meu ombro em direção ao caixão. “Bem, amigo ou não, a casa vai para a venda em breve. Já tenho um interessado. Não faz sentido deixá-la assim.”
Não disse nada. Não sabia se era tristeza ou raiva que estava deixando minhas mãos geladas, mas sabia que Ezra não gostaria de uma cena no próprio funeral.
O sobrinho dele se inclinou um pouco para frente.
“Sabe, as pessoas se apegam a velhos solitários por vários motivos. Espero que os seus tenham sido bons.”
“Nunca peguei um centavo dele”, disse baixinho.
“É o que todo mundo diz.”
O sobrinho do meu falecido vizinho saiu antes que eu pudesse responder, já com o telefone no ouvido, como se nossa conversa não tivesse significado nada.
Fiquei ali parado, observando os últimos enlutados se dirigirem para o estacionamento. Estava prestes a ir embora quando outro homem parou na minha frente, segurando algo ao lado do corpo.
“Você é Anthony? O vizinho que costumava ajudar o Sr. Harrison?”
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