Passaram-se vários minutos antes que ele falasse.
“A coisa está séria, não é?”
Dei uma risada amarga.
“Mais do que você imagina.”
Ele assentiu calmamente. Então disse:
“Amanhã de manhã, quero que você venha comigo.”
Olhei para ele, cansada.
“Para onde?”
“Para um lugar que preciso te mostrar.”
Franzei a testa.
“Esteban, não estou com paciência para charadas agora.”
“Não é uma charada”, respondeu ele, olhando-me diretamente nos olhos. “Apenas confie em mim mais uma vez. Traga a Sofia também.”
Da porta da cozinha, Sofia, que ouvira parte da conversa, cruzou os braços.
“E por que ele quer que eu vá?”
Esteban levantou-se lentamente.
“Porque vocês duas precisam ver.”
Seu tom não era áspero nem arrogante. Mas havia uma estranha certeza em sua voz. Algo que me fez calar.
Na manhã seguinte, sem realmente entender o porquê, nós três entramos na caminhonete. Esteban dirigia. Eu estava no banco do passageiro. Sofía estava atrás, em silêncio, olhando pela janela.
Saímos da cidade e pegamos uma estrada secundária cercada por campos abertos, cactos figo-da-índia, pequenos terrenos e antigos armazéns. A viagem durou mais de uma hora. Nenhum de nós fez perguntas depois dos primeiros minutos. Havia algo no rosto de Esteban que nos mantinha quietos.
Finalmente, ele virou a caminhonete em uma estrada de terra e parou em frente a um portão de ferro pintado de verde. Além dele, estendia-se uma vasta propriedade.
“Saiam”, disse ele.
Saí primeiro. Depois, Sofía. E assim que olhei para cima… congelei.
Diante de nós, havia um imenso pomar, impecavelmente cuidado. Fileiras e fileiras de árvores frutíferas, estufas e campos de tomates, pimentas, abóboras e ervas aromáticas. Mais adiante, várias construções simples, porém sólidas, se erguiam: uma cozinha comunitária, um galpão, um pequeno escritório e dormitórios modestos e limpos. Homens trabalhavam a terra, mulheres organizavam caixas e crianças corriam pelos caminhos de cascalho, com risos puros e genuínos.
Não era um terreno abandonado.
Não era por acaso.
Era um projeto vivo. Próspero. Organizado.
E na entrada principal, em uma parede branca, havia uma placa de madeira:
Centro Comunitário La Segunda Raíz
Senti um arrepio.
“O que… o que é este lugar?”, murmurei.
Esteban fechou delicadamente a porta da caminhonete.
“É o lugar onde recomecei.”
Virei-me para ele, confusa.
Naquele instante, um senhor de chapéu de palha saiu do escritório e sorriu ao nos ver.
“Don Esteban! Vocês estão aqui.”
Don Esteban.
Essas duas palavras me atingiram com mais força do que qualquer explicação. O homem se aproximou, apertou a mão do meu irmão com genuíno respeito, não com pena, não com medo. Respeito. Depois, cumprimentou Sofia e a mim.
“Vocês devem ser da família dele. É um prazer. Sou Julián, o administrador do centro. Seu irmão nos contou muito sobre vocês.”
Mal consegui responder.
Olhei em volta novamente. Vi dois jovens carregando sacos. Um deles tinha tatuagens nos braços e uma cicatriz na sobrancelha. O outro mancava um pouco. Mais adiante, uma mulher com uma criança pequena nos braços lavava verduras enquanto outra a ajudava. Todos pareciam ocupados, dignos, serenos.
Esteban caminhou alguns passos em direção à plantação e nos fez um gesto para segui-lo.
“Anos atrás”, disse ele, sem se virar, “quando saí da prisão, achei que minha vida não tinha sentido. Para onde quer que eu fosse, as portas se fechavam para mim. Ninguém queria me dar um emprego.” Ninguém queria sentar para comer comigo. Ninguém confiava em mim… exceto você.
Engoli em seco.
Ele continuou:
“Comecei a dirigir para você durante o dia. Mas à noite, quando terminava, vinha para cá. Esta terra pertencia a uma paróquia que a havia deixado se deteriorar. O padre queria torná-la útil para pessoas que precisavam de uma segunda chance, mas não tinha dinheiro suficiente nem mão de obra suficiente. Um dia, ofereci ajuda. Primeiro, limpei o mato. Depois, consertei as cercas. Em seguida, plantei as primeiras sementes.”
Ele se abaixou, pegou um punhado de terra e a deixou cair lentamente entre os dedos.
“Eu entendia de terra porque ajudava meu avô quando era menino. Lembra? Ninguém achava que daria em alguma coisa. Mas deu. E quando as primeiras colheitas chegaram, foram vendidas nos mercados próximos. Com esse dinheiro, compramos mais ferramentas, mais sementes, mais suprimentos. Então, outros homens como eu começaram a chegar. Ex-presidiários. Marginalizados. Mães solteiras. Pessoas que não tinham para onde ir.”
Ele se abaixou, pegou um punhado de terra e a deixou cair lentamente entre os dedos.
“Eu sabia sobre a terra porque ajudava meu avô quando era menino. Lembra? Ninguém achava que daria em alguma coisa. Mas deu. E quando as primeiras colheitas chegaram, foram vendidas nos mercados próximos. Com esse dinheiro, compramos mais ferramentas, mais sementes, mais suprimentos. Então, outros homens como eu começaram a chegar. Ex-presidiários. Marginalizados. Mães solteiras. Pessoas que não tinham para onde ir.”
Sofia levou a mão à boca.
Esteban olhou para ela com ternura, sem ressentimento.
“Aqui, ninguém pergunta de onde você vem para te humilhar. Só perguntam se você está disposta a trabalhar e não desistir.”
Senti um nó na garganta.
“Foi você quem construiu tudo isso?”
Ele balançou a cabeça lentamente.
“Não fui só eu. Muitos de nós construímos. Mas eu estou aqui desde o começo.”
Julian, que nos seguia à distância, acrescentou:
“Seu irmão não só trabalhou aqui. Foi ele quem propôs o sistema de distribuição. Foi ele quem convenceu vários…”
Os compradores de Guadalajara nos deram uma chance. E foi ele quem, durante anos, doou quase todo o seu salário para que este lugar pudesse continuar crescendo.
Virei a cabeça para Esteban tão rápido que quase fiquei tonta.
“O que você disse?”
Julián sorriu tristemente.
“Ele vivia com muito pouco. Guardava o mínimo necessário para as despesas pessoais. O resto vinha para cá. Ele também pagava tratamentos médicos para dois filhos, material escolar e até ajudou a construir a nova ala do dormitório.”
Senti um calor insuportável no peito.
Lembrei-me de todas as vezes que lhe ofereci um aumento e ele me disse que não era necessário. Todas as vezes que o vi usando a mesma jaqueta gasta, os mesmos sapatos remendados. Pensei que fosse o hábito de um homem humilde.
Não.
Era altruísmo. Era generosidade silenciosa.
Virei-me para Sofía.
Ela estava pálida, os olhos cheios de lágrimas, olhando para Esteban como se o visse pela primeira vez na vida.
Então, uma menininha, de uns oito anos, saiu correndo da cozinha e abraçou a cintura do meu irmão.
“Tio Esteban, o pão está pronto!”
Ele sorriu e acariciou os cabelos dela.
“Muito bem, Lupita. Já vamos.”
A menininha olhou para cima e nos observou com curiosidade antes de sair correndo novamente.
Sofia desabou naquele instante.
Ela cobriu o rosto com as duas mãos e soltou um soluço que vinha segurando há muito tempo.
“Eu…”, disse ela entre lágrimas. “Eu fui injusta com você.”
Esteban não respondeu. Ele esperou.