Mas você deveria ter me deixado sentir medo junto com você.
Ela me encarou por um longo tempo.
Então, assentiu uma vez.
“Eu sei.”
Aquela foi a noite em que paramos de tentar ser nobres e começamos a tentar ser honestas.
O tratamento terminou na primeira semana da primavera.
A última tomografia computadorizada foi três semanas depois.
Sentamos no estacionamento depois, nenhuma de nós falando, porque nenhuma de nós confiava na própria voz.
Quando a médica voltou para a sala, sorrindo antes de falar, Elena apertou minha mão com tanta força que doeu.
Remissão.
Não é mágica.
Não é uma promessa.
Não é o fim do medo para sempre.
Mas é remissão.
Chorei com o rosto entre as mãos como uma criança.
Elena riu e chorou pelo mesmo motivo.
Tempo.
Quando chegamos em casa, Sonia correu em nossa direção tão rápido que quase derrubou Elena.
Pedimos comida rápida e gordurosa, deixamos a louça na pia e deixamos a noite ficar barulhenta, bagunçada e cheia de gratidão.
Algumas noites depois, Sonia estava parada na porta, de pijama, e me fez a pergunta que fechou o ciclo.
“Não há mais homens à noite?”
Olhei para Elena antes de responder.
Ela sorriu, cansada, mas sincera.
“Não há mais homens à noite”, eu disse.
“Só nós.”
Sonia pareceu satisfeita.
Ela voltou para a cama, abraçando seu coelho, e eu fiquei deitada ali por um tempo, olhando para o corredor vazio.
Às vezes, ainda acordo por volta das 13h13 e vejo aquela fina linha de luz na minha mente, a porta se abrindo, a sombra entrando, minha vida inteira prestes a desmoronar.
Por um tempo, pensei que o maior perigo daquela noite fosse a traição.
Não era.
O maior perigo residia na facilidade com que duas pessoas que se amavam começaram a se proteger com o silêncio, até que o próprio silêncio se tornou uma forma de dano.
Ainda não sei quem teve mais culpa.
A mulher que carregou o terror sozinha até que ele quase a destruiu, ou o marido que percebeu todos os sinais, exceto o que importava.