“Eu cuido disso”, disse Shane, com a voz grave e rouca.
“Legalmente, Shane. Prometa.”
Ele encontrou o olhar suplicante da esposa e não disse nada. Algumas promessas ele não podia fazer.
Duas semanas se arrastaram. Shane observou e esperou, seu treinamento de vigilância da Força de Reconhecimento se ativando com um zumbido antigo e familiar. Ele passou de carro pela Titan’s Forge três vezes, memorizando o layout, os padrões, os rostos. O instrutor de Dustin era um falastrão chamado Perry Cox, um homem na casa dos quarenta, com a cabeça raspada e tatuagens no pescoço, o tipo de instrutor que confundia brutalidade com disciplina.
Shane também fez ligações. Seu antigo amigo fuzileiro naval, Gabriel Stevenson, agora investigador particular em San Diego, fez verificações de antecedentes.
“O namorado da sua filha é um bandido, cara”, relatou Gabriel ao telefone, com a voz sombria. “Três acusações de agressão que foram reduzidas a contravenções.” Uma ordem de restrição de uma ex-namorada. E o pior de tudo: o tio dela é Royce Clark.
O sangue de Shane gelou. Royce Clark comandava os Southside Vipers, uma organização que controlava mercados ilícitos e circuitos clandestinos de lutas em três condados. Eles não eram apenas ladrões de rua; eram criminosos organizados que usavam empresas legítimas como fachada e policiais corruptos em sua folha de pagamento.
“Freeman é o boxeador estrela deles”, continuou Gabriel. “Eles o usam em lutas clandestinas, apostando centenas de milhares de dólares. Se ele perde, pessoas se machucam. Shane é um monstro no ringue. Três de seus oponentes foram hospitalizados, um com danos cerebrais permanentes.”
“Mande tudo”, disse Shane em tom monótono.
“Shane, essas pessoas não são fuzileiros navais bêbados que você pode endireitar. Eles são…”
“Mande tudo.”
Naquela noite, Marcy veio jantar. Ela usava mangas compridas e se movia com ainda mais cuidado do que antes. Lisa tentou convencê-la a sair, mas Marcy apenas brincava com a comida, seu corpo tenso a cada vibração do celular. Ela o checava constantemente, o medo mal disfarçado.
Depois do jantar, Shane acompanhou Marcy até o carro. “Querida”, disse ele gentilmente, “eu sei o que está acontecendo.”
Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Pai, por favor, não faça isso.”
“Ele te bateu?”
“É complicado. Ele fica estressado com os treinos, com as expectativas do tio. Ele nem sempre é assim…”
“Ele te bateu?”
As lágrimas começaram a rolar. “Ele diz que me ama. Ele pede desculpas todas as vezes. É só que… ele está sob muita pressão da família.”
Shane a abraçou, sentindo seu pequeno corpo tremer contra o seu. “Isso acaba agora.”
“Pai, você não entende! Seu tio… Dustin disse que se eu for embora, Royce vai te machucar. Ele vai machucar nossa família. Eles estão todos conectados, pai. A polícia, os juízes, todo mundo.”
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