O pai casou sua filha, cega de nascença, com um mendigo, e o que aconteceu em seguida surpreendeu muita gente.

“Porque o menino”, disse o mensageiro, apontando para a cama, “não é como o pai. Ele falou do anjo enquanto adormecia. Ele tem um coração que ainda não foi endurecido pela cidade.”

O mensageiro estendeu a mão e pegou o bisturi de prata da mesa. Não o usou em Yusha. Em vez disso, foi até a fogueira e o atirou sobre as brasas.

“O médico está morto”, disse o mensageiro, olhando Yusha nos olhos. “Ele morreu no incêndio há anos. Este homem é apenas um mendigo que teve sorte com uma agulha. Direi ao governador que encontramos um monge errante. Partiremos ao meio-dia.”

Quando a carruagem finalmente partiu, deixando sulcos profundos na lama, o silêncio que retornou à casa era diferente. Não era mais o silêncio da paz; era o silêncio de uma trégua.

Malik, pai de Zainab, observou a partida da porta do pequeno barracão onde agora morava. Ele tinha visto o brasão real. Ele vira as mãos da médica. Ela se aproximou da casa principal, arrastando os pés com um andar patético.

“Você poderia ter negociado”, sibilou Malik ao chegar à varanda. “Poderia ter pedido suas terras de volta. As minhas de volta! Você teve a vida do filho dele em suas mãos e o deixou ir embora sem receber nada em troca?”

Zainab se virou para encarar o pai. Não precisava vê-lo para sentir a ganância murcha que emanava de seus poros.

“Você ainda não entende, pai”, disse ele, com a voz fria como um sino. “Um acordo é o que se faz quando se dá valor às coisas. Nós damos valor às nossas vidas. Hoje, compramos nosso silêncio com uma vida. Essa é a única moeda que importa.”

Ele estendeu a mão e pegou a de Yusha. Sua pele estava fria, seu espírito exausto.

“Volte para o seu barracão, pai”, ordenou ele. “A sopa está na lareira. Coma e agradeça pela misericórdia dos fantasmas desta casa.”

Naquela tarde, enquanto o sol se punha atrás das montanhas, pintando um pôr do sol que Zainab jamais veria, mas que podia sentir como um calor tênue em sua pele, Yusha apoiou a cabeça em seu ombro.

“Eles voltarão algum dia”, sussurrou. “O menino se lembrará. O mensageiro falará.”

“Que venham”, respondeu Zainab, traçando com os dedos as cicatrizes em suas palmas: cicatrizes de fogo, cicatrizes de anos de mendicância e os cortes recentes da cirurgia da noite anterior. “Vivemos na escuridão tempo suficiente para saber como escapar dela. Se vierem buscar o médico, terão que passar pela garota cega primeiro.”

Ao longe, o rio continuava sua jornada implacável, esculpindo seu caminho através da pedra, provando que até mesmo a água mais mansa pode quebrar a montanha mais dura, se tiver tempo suficiente.

O ar no vale havia se tornado rarefeito com a chegada de um inverno brutal, dez anos após a noite da carruagem ensanguentada. A casa de pedra havia sido ampliada, com a adição de uma pequena ala que servia de clínica para os intocáveis: leprosos, pobres e aqueles que os médicos da cidade consideravam “irrecuperáveis”.

Zainab se movia pela enfermaria com uma graça fantasmagórica. Ela não precisava de olhos para saber que o leito três precisava de mais chá de casca de salgueiro para a febre, ou que a mulher perto da janela chorava silenciosamente. Ela podia ouvir o sal caindo no travesseiro.

Veja o resto na próxima página.

 

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