Chegamos ao riacho sem sermos vistos. O nível da água estava baixo e conseguimos atravessá-lo pulando de pedra em pedra. Do outro lado, começava a densa floresta. “Daqui, vamos seguir a trilha dos caçadores”, expliquei. “É mais longa, mas mais segura.”
Caminhamos por duas horas antes de fazermos nossa primeira parada. Violeta estava exausta, com o rosto corado pelo esforço. “Preciso descansar”, disse ela, sentando-se em uma pedra.
“Claro que temos tempo.”
Enquanto ela descansava, observei o terreno ao nosso redor. Estávamos em uma parte da floresta que eu conhecia bem, mas ainda dentro dos limites da propriedade. Tínhamos que chegar à divisa antes do anoitecer. “Joaquim”, disse Violeta, “você acha que vamos conseguir?”
“Vamos. Temos que conseguir.”
“O que acontece se o bebê nascer no quilombo sem médico, sem parteira?”
“Há mulheres que sabem como auxiliar no parto, e nosso bebê nascerá saudável. Vale a pena correr qualquer risco.”
Violeta sorriu pela primeira vez naquele dia. “Nosso filho… Livre. Gosto de ouvir isso.”
Continuamos caminhando até o anoitecer. Com a chegada da noite, finalmente chegamos à divisa da fazenda. Estávamos oficialmente fora da propriedade do coronel. “Conseguimos”, sussurrei, abraçando Violeta. “Somos livres.”
“Livres”, ela repetiu, como se saboreasse a palavra.
Passamos nossa primeira noite de liberdade em uma pequena caverna que encontramos entre as rochas. Estava fria e úmida, mas era nossa. Pela primeira vez em nossas vidas, não pertencíamos a ninguém. “Não acredito que fiz isso”, disse Violeta, aconchegada em meus braços.
“Eu consegui. E amanhã começamos nossa nova vida.”
“Como você acha que será viver em um quilombo?”
“Não sei, mas será nossa decisão. É isso que importa.”
Na manhã seguinte, retomamos nossa jornada. O terreno se tornou mais difícil à medida que subíamos a montanha, mas Violeta se mostrou mais forte do que eu esperava. Sua determinação em conquistar a liberdade parecia lhe conceder uma força que ela nem sabia que possuía.
“Olha”, disse ela durante uma pausa, apontando para o vale lá embaixo. “A fazenda parece tão pequena daqui de cima.”
Era verdade. A Fazenda Boa Esperança, que havia sido nosso mundo inteiro, agora parecia um mero ponto no horizonte. “Pequena e distante”, concordei, “como o nosso passado.”