Aos 56 anos, eu achava que finalmente encontrar o amor era a surpresa mais maravilhosa da minha vida. Então, minha irmã mais nova me mandou um bolo de casamento que nenhuma noiva deveria ver, com palavras cor-de-rosa escritas na cobertura, feito para me humilhar na frente de todos os convidados. O que meu marido fez depois a deixou sem palavras.
A biblioteca cheirava a papel velho e cera de limão, como nos últimos 34 anos. Guardei um exemplar surrado de “Princípios de Projeto de Pontes” e ouvi o zumbido do radiador, minha única companhia na maioria das noites.
Aos 56 anos, eu havia feito as pazes com a quietude. Paz com o velho cardigã, a caneca solitária e o gato que não era meu, mas que sempre vinha me visitar.
Meus vinte, trinta e boa parte dos meus quarenta anos foram passados com meus pais depois do acidente de carro deles.
Passei meus vinte, trinta e quase quarenta anos com meus pais depois do acidente de carro deles. Cadeiras de rodas, remédios, vasos sanitários de esponja. O verdadeiro amor bateu em outras portas. Então chegou Daniel.
Ele aparecia todas as quintas-feiras às quatro, procurando algo denso e mecânico, e ficava até o horário de fechamento com suas mãos calejadas, seu olhar calmo e uma risada que nos surpreendeu a ambos na primeira vez que a ouvimos.
“Margaret”, murmurou ele numa quinta-feira, deslizando um livro pelo balcão, “você lê esses livros ou apenas julga os homens que os leem?”
“Estou julgando”, respondi, tocando a coluna. “Em silêncio. É um privilégio de bibliotecária.”
Daniel sorriu.
“Qual é o veredito sobre mim?”
“Ainda estou esperando!”
“Perdi alguém nesta primavera.”
Com o passar das semanas, a espera pelo veredito se transformou em uma pausa para o café, depois em um jantar, e depois em ele consertando a dobradiça rangente da minha porta dos fundos, sem que eu sequer pedisse.
Uma tarde, no meu terraço, ele ficou olhando para as mãos por um longo tempo.
“Perdi alguém nesta primavera”, disse ele finalmente. “Meu melhor amigo de infância. Ele criou a neta depois que os pais dela morreram. Agora, bem…” Sua voz embargou. “Enfim.”