EP 02 — A NOITE EM QUE MEU BEBÊ PAROU DE SE MEXER

EPISÓDIO 02 — A NOITE EM QUE MEU BEBÊ PAROU DE SE MEXER

Meu marido mandou me prender antes mesmo de eu dar à luz porque a mãe dele olhou nos olhos dele e mentiu, dizendo que eu a havia envenenado.

Ela agarrou a barriga.

Chorou como uma mulher lutando pela vida.

Apontou para mim com um dedo trêmulo e sussurrou: “Ela quer me matar”.

E meu marido acreditou nela.

Ele não me perguntou o que tinha acontecido.

Não esperou o médico.

Nem sequer olhou para a comida que ela alegou que eu havia envenenado.

Ele simplesmente se virou para mim, com a raiva queimando em seus olhos.

Eu estava grávida de cinco meses, descalça na cozinha, uma mão na barriga e a outra agarrada ao balcão porque já estava tonta com o choque. Eu repetia: “Daniel, eu não fiz nada. Por favor. Eu jamais machucaria sua mãe”.

Mas ele não conseguia mais me ouvir.

Sua mãe, Vivian, estava deitada no sofá atrás dele, emitindo sons baixos e sufocados que se intensificavam sempre que Daniel olhava para ela. Ela sabia exatamente como manipulá-lo. Ela o havia treinado para acreditar em suas lágrimas antes da verdade de qualquer outra pessoa.

Então Daniel me deu um tapa.

O som ecoou na cozinha como vidro quebrando.

Virei a cabeça tão bruscamente que quase perdi o equilíbrio. Uma sensação de queimação se espalhou pela minha bochecha. Meus ouvidos zumbiam. Por um instante, tudo ficou embaçado e achei que ia cair.

Agarrei minha barriga com as duas mãos.

“Daniel”, sussurrei. “O bebê…”

Mas, em vez de me ajudar, em vez de chamar uma ambulância, em vez de sequer perguntar se eu estava bem, ele agarrou meu braço e me arrastou em direção à porta.

Sua mãe gritou do sofá: “Não a deixe escapar! Ela vai terminar o que começou!”

Essa foi a última coisa que ouvi antes de Daniel me empurrar para dentro do carro.

Pensei que ele me levaria ao hospital.

Enganei-me.

Ele me levou à delegacia.

Ao anoitecer, sentei-me atrás das grades, ainda com o mesmo vestido azul folgado de gestante, o gosto de sangue ainda presente na minha bochecha, onde meus dentes haviam me cortado. Meu estômago estava pesado. Minhas costas doíam. Meu corpo inteiro tremia, não apenas de medo, mas da terrível constatação de que o homem que eu amara havia escolhido a mentira de sua mãe em vez de seu filho ainda não nascido.

Não consegui dormir na primeira noite na prisão.

O colchão cheirava a suor e trapos úmidos. Ao me deitar, algo rastejou pelo meu braço. Dei um pulo e vi pequenos insetos se movendo entre as costuras. Senti um arrepio de nojo.

Então dormi no chão.

O concreto era duro e gelado, mas pelo menos nada me picou ali. Ou assim eu pensava.

À meia-noite, mosquitos me rodeavam. Zumbiam perto dos meus ouvidos, pousavam no meu rosto, nos meus braços, nas minhas pernas. Eu os espantava até as palmas das minhas mãos doerem, mas eles continuavam voltando. De manhã, minha pele estava coberta de vergões vermelhos e meu corpo ardia de febre.

A comida que me davam piorava tudo.

O arroz estava mal cozido. A sopa tinha cheiro azedo. A carne parecia cinza e velha. Eu me forçava a comer porque estava grávida, mas cada mordida fazia meu estômago revirar. Às vezes, eu vomitava tanto que meu corpo inteiro tremia. Outras vezes, eu me sentava num canto da cela, agarrando minha barriga e sussurrando para o meu bebê: “Desculpe. Mamãe está tentando. Por favor, fique comigo.”

Os dias se passaram.

Daniel nunca veio.

Nem uma vez.

Todas as manhãs eu perguntava se alguém tinha ligado para me dizer alguma coisa. A resposta era sempre não.

Minha febre piorou. Meus lábios racharam. Minhas mãos ficaram fracas. Eu mal conseguia ficar em pé sem me apoiar na parede.

As outras mulheres na cela começaram a notar.

Uma delas, uma mulher chamada Rosa, me deu metade do seu pão numa tarde e disse: “Você precisa mais do que eu”.

Eu a encarei, envergonhada demais para aceitar.

Mesmo assim, ela colocou o pão na minha mão.

“Você está grávida”, disse ela suavemente. “O orgulho não vai alimentar nenhuma de nós.”

Aquela gentileza me comoveu profundamente. Chorei enquanto comia aquele pedaço de pão, porque uma estranha na prisão havia me demonstrado mais afeto do que meu próprio marido.

Naquela noite, implorei ao guarda de plantão que me deixasse fazer um telefonema.

A princípio, ele me ignorou.

“Por favor”, eu disse, agarrando as grades. “Estou grávida. Estou passando mal. Preciso falar com meu marido. Só uma ligação.”

Talvez ele tenha percebido o quanto eu estava pálida. Talvez tenha sentido o desespero na minha voz. Depois de uma longa pausa, ele abriu a porta da cela e me levou até o telefone.

Minhas mãos tremiam enquanto eu discava o número de Daniel.

Ele atendeu no quarto toque.

“Daniel”, sussurrei, quase desmaiando de alívio. “Por favor, me escute. Estou doente. Estou com febre. Não consigo parar de vomitar. O bebê… Eu não me sinto bem. Por favor, me tire daqui. Mesmo que você me odeie, faça isso pelo seu filho.”

Houve silêncio.

Então sua voz ficou fria e dura.

“Minha mãe quase morreu por sua causa.”

“Não!”, gritei. “Ela mentiu. Por favor.”

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