PARTE 2
A humilhação daquela noite não começou com o tapa.
Começou meses antes, quando Valéria começou a corrigir Renata em sua própria casa.
Primeiro, eram pequenos detalhes.
“Rodrigo prefere orquídeas brancas, não buganvílias”, disse ela certa tarde, mudando a disposição das flores que Renata havia escolhido para o jantar em família.
Renata olhou para ela.
“Esta é a minha mesa.”
Valéria sorriu.
“Claro. Só quero que ele se sinta confortável.”
Depois vieram as ligações vazadas, os compromissos cancelados, as mensagens que Rodrigo respondia com horas de atraso porque “Valéria estava organizando sua agenda”.
Então, Valéria começou a sentar-se ao lado de Rodrigo em reuniões particulares.
Escolhendo gravatas para ele.
Entrando em seu escritório sem bater.
Chamando Renata de “senhora” na frente dos outros e de “Renata” quando não havia testemunhas.
Renata não gritou.
Ela não implorou. Ela não competiu.
Ela documentou tudo.
Solicitou ao Fundo Salcedo uma revisão discreta da governança corporativa do Grupo Ibarra. Não por ciúme. Por causa dos números.
E os números começaram a cheirar a peixe.
Apartamentos em Santa Fé listados como “hospedagem executiva”.
Viagens a Los Cabos classificadas como “relações com investidores”.
Uma consultora de imagem contratada por 1,8 milhão de pesos, de propriedade do primo de Valeria.
Acesso confidencial que uma assistente jamais deveria ter.
Na noite do jantar, Renata já sabia o suficiente para terminar seu casamento.
O que ela não esperava era a mão de Valeria em seu rosto.
Após o tapa, o gerente do restaurante entrou com dois seguranças. Atrás deles apareceu Mariana Ríos, advogada de Renata, que até então estava sentada no salão principal fingindo ter um jantar casual.
“Sra. Salcedo”, disse Mariana, “gostaria de registrar uma queixa sobre o incidente?”
Valéria piscou.
“Quem é você?”
“Advogado.”
Rodrigo deu um passo à frente.
“Mariana, agora não.”
Renata quase sorriu.
Rodrigo havia se esquecido de uma regra básica: não se pode silenciar as pessoas depois que elas param de trabalhar para sua conveniência.
“Sim”, disse Renata. “Quero a queixa. E quero que o restaurante guarde todas as gravações de vídeo do salão, dos corredores, da entrada e do elevador privativo.”
Rodrigo empalideceu novamente.
Os investidores perceberam.
Don Santiago Arriaga, um dos sócios mais poderosos de Monterrey, colocou seu copo sobre a mesa.
“Rodrigo, por que você está tão preocupado com eles guardarem o vídeo?”
Ninguém respondeu.
Aquele silêncio doeu mais do que o tapa.
Valéria olhou para Rodrigo.
“Diga a eles que isso é ridículo.”
Rodrigo não olhou para ela.
Então Valéria entendeu algo brutal: estar perto do poder não era o mesmo que tê-lo.
Mariana abriu uma pasta fina e tirou uma folha de papel.
“Considerando o incidente desta noite e a análise preliminar, o Fundo Salcedo pode recomendar a suspensão imediata do financiamento-ponte.”
Rodrigo rangeu os dentes.
“Você não pode fazer isso por causa de uma briga de casal.”
Renata baixou a cabeça.
“Essa briga de casal não é suficiente para você? Ótimo. Então vamos falar tecnicamente.”
Valéria sentiu o chão tremer sob seus pés.
Renata continuou:
“Sua assistente compareceu a um jantar restrito sem uma declaração formal de conflito de interesses. Ela tentou alterar a disposição dos assentos dos investidores. Ela me agrediu fisicamente. Você solicitou que nenhuma prova fosse preservada. E isso sem mencionar as despesas irregulares.”
Os olhos de Valéria se arregalaram.
“Despesas irregulares?”
Rodrigo sussurrou:
“Renata, pare.”
Ela assinou o relatório sem que sua mão tremesse.
“Não. Essa palavra agora me pertence.”
E quando Mariana deslizou a segunda folha de papel sobre a mesa, Rodrigo entendeu que o tapa apenas abrira uma porta muito mais sombria.