Durante 12 anos, fiz as compras do meu vizinho de 84 anos todos os domingos; após o funeral dele, o advogado me entregou uma mala surrada, e o que havia dentro me fez tremer as mãos.

Ezra morava ao lado há anos. Acenamos de nossos carros, trocamos breves cumprimentos e depois voltamos às nossas vidas separadas. Eu não saberia dizer a ninguém a cor da porta dele sem olhar.

Naquela manhã, vi Ezra lutando com quatro sacolas de compras no porta-malas. Uma escorregou, grudou no cotovelo dele e quase caiu no chão. Antes que eu pudesse pensar direito, já estava caminhando em sua direção.

“Deixe-me pegar”, eu disse.

“Ah, não precisa”, disse meu vizinho.

“Eu sei. Vamos lá.”

Depois disso, ele não discutiu. Carreguei as sacolas pela varanda até uma cozinha que cheirava a madeira velha e café instantâneo. O velho se movia com passos lentos e cuidadosos, como as pessoas fazem quando passam muitos anos sozinhas.

“Sente-se um pouco”, disse Ezra. “O mínimo que posso fazer é lhe oferecer uma xícara de café.”

Quase recusei, porque eu não era exatamente o tipo de homem que tomava café com estranhos. Mas havia algo na maneira como ele perguntou, como se já esperasse que eu fosse embora, que me fez puxar uma cadeira.

“Uma xícara”, eu disse. “Depois preciso ir verificar as calhas.”

Meu vizinho riu. Foi um som baixo, surpreso e acolhedor.

Acabamos conversando por quase uma hora!

Ezra me contou sobre o bairro na época em que os milharais ainda ocupavam o lugar onde hoje fica a escola primária. Contei a ele sobre a minha vida e como me mudei para cá pensando que ficaria apenas dois anos.

“Engraçado como as coisas acontecem”, disse ele. “Eu disse a mesma coisa para minha esposa sobre este lugar em 1971!”

Meu vizinho mencionou um sobrinho uma vez, no meio da conversa. Marcus, eu acho. Ele disse o nome como quem diz o nome de um parente que conhecia bem, com uma pequena pausa depois.

“Ele liga às vezes”, disse Ezra. “Quando precisa de alguma coisa.”

O velho deu de ombros como se não importasse, mas seus olhos demoraram-se na xícara por um segundo a mais do que o necessário. Não insisti. Não era da minha conta, e ele não parecia inclinado a torná-la minha.

Ao me levantar para sair, bati no batente da porta.

“Ei, da próxima vez que for às compras, é só me ligar. Relaxa”, brinquei.

“Não quero te incomodar.”

“Então não veja como um incômodo.”

Meu vizinho sorriu devagar e de um jeito meio torto.

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