“Ele pediu isso.”
“Eu entrego a ele.”
“Sou a esposa dele.”
Seu sorriso se curvou num sorriso irônico.
“Em papel. Material de escritório.”
A recepcionista, que era enfermeira, ergueu os olhos. Senti aquela velha vontade de me desculpar e recuar.
Em vez disso, dei um passo à frente.
“Dê licença, Deborah.”
Alfred riu.
“Você esqueceu seu papel.”
“Não”, eu disse. “Você esqueceu o meu.”
A voz de Arthur veio de dentro.
“Deixe-a entrar.”
Deborah se virou rapidamente.
“Pai, você precisa descansar.”
“Então pare de fazer minha esposa se esforçar para entrar nesta sala.”
Deborah deu licença, sussurrando:
“Isso vai acabar logo.”
Passei por ela.
Arthur parecia menor a cada dia, mas seus olhos ainda se aguçavam quando encontravam os meus.
“Você não deveria discutir com eles”, eu disse, colocando a sacola no chão.
“Eles me esgotam”, disse ele. “Você me traz alegria, minha querida.”
Eu ri e chorei antes que pudesse parar.
Naquela tarde, ele pediu que todos fossem embora, exceto eu.
Foi então que ele me deu a caixa.
Dois dias depois, ele se foi.
No funeral, eu usava um vestido preto simples que havia comprado na liquidação. Após a cerimônia, as pessoas se reuniram na casa. Funeral e luto.
Débora atravessou a sala com um copo na mão.
“Espero que você tenha guardado o recibo daquele vestido.”
A sala ficou em silêncio em alguns momentos.
“Este é o funeral do seu pai”, eu disse. “Mostre um pouco de respeito.”
“Exatamente”, ela respondeu. “E depois de hoje, o espetáculo acabou.”
Norman olhou para o copo. Alfred não a impediu.
Durante dois anos, deixei que me menosprezassem porque acreditava que dignidade era silêncio. Arthur não estava mais lá para me dar a mão. Então, fiquei sozinha.