Quando me casei com Arthur, as pessoas agiram como se a história já estivesse escrita. Eu tinha trinta e dois anos. Ele, oitenta e quatro. Era tudo o que precisavam saber. Os amigos dele me olhavam por cima das taças de vinho. Estranhos em jantares beneficentes olhavam primeiro para o meu anel e depois para o andador do Arthur. Os filhos dele me odiavam antes mesmo de eu terminar de me apresentar.
Deborah era mais velha do que eu e fazia questão de me lembrar disso. Alfred observava tudo o que eu tocava. Norman sorria demais.
No nosso casamento, enquanto eu cortava um pedaço de salmão, Deborah se aproximou.
“Espero que o número que você tem em mente valha a pena.”
Larguei o garfo.
“Valer a pena o quê?”
“O jeito que todos olham para você.”
Arthur colocou a mão sobre a minha por baixo da mesa.
“Deborah”, disse ele, “não confunda crueldade com lealdade.”
Ela apertou os lábios.
“Estou protegendo o lugar da mamãe. Gravidez e maternidade.”
Observei-a atentamente.
“Não estou tentando substituir sua mãe.”
“Não fale dela”, disse Alfred.
A voz de Arthur permaneceu calma.
“Sophia era minha esposa. Camille é minha esposa agora. Uma não apaga a outra.”
Norman deu uma risadinha.
“Pai, ela é mais nova que sua filha.”
“Então minha filha deveria saber se comportar melhor.”
Eu queria ir embora. Passei a maior parte da minha vida saindo de lugares antes que alguém me pedisse.
Arthur ainda segurava minha mão.
“Não desperdice sua paz com pessoas que vieram aqui com raiva”, disse ele.
“Elas acham que eu sou um monstro.”
“Não”, disse ele. “Elas acham que você é uma ladra. Há uma diferença.”
A verdade não era bonita o suficiente para explicar em uma sala cheia de pessoas que já haviam me julgado. O dinheiro de Arthur me dava uma sensação de segurança. Eu gostava de saber que o aquecimento não ia acabar. Gostava de não ter que contar cada item duas vezes no supermercado. Gostava de dormir em uma casa onde uma semana ruim não me deixaria no sofá de alguém.
Mas eu não me casei com ele por causa do ouro e dos diamantes. Casei com Arthur porque ele foi o primeiro homem que não me fez sentir como se eu fosse passageira.
Uma noite, pouco depois do casamento, Arthur me encontrou na cozinha, minhas mãos tremendo, preparando chá de camomila.
“Você só faz chá de camomila quando está sobrecarregada”, disse ele.
Eu sorri gentilmente.
“Acho que não é verdade.”
“É sim.”
“Você poderia fingir que não percebe, Arthur.”
“Eu tenho oitenta e quatro anos, Camille. Não tenho tempo para fingir que não vejo o que está bem na minha frente. Horários e calendários.”
Olhei para a xícara.
“Sabe, meu ex-noivo me pediu para sair duas semanas antes do casamento.” Ele disse que o apartamento era dele, então eu não tinha o direito de ficar. O antigo morador me deixava pagar o aluguel, mas toda vez que discutíamos, ele me lembrava que meu nome não estava no contrato.