A viúva de 60 anos que comprou o escravo mais jovem do mercado para torná-lo seu herdeiro (1842)

Um quarto decente com uma cama, uma cômoda e uma janela com vista para o jardim. “Você vai dormir aqui”, anunciou Elizabeth. “Amanhã começaremos seu treinamento.” Naquela noite, Samuel ficou acordado por horas, sem entender o que estava acontecendo com ele.

Ele havia crescido em uma cabana apertada, onde dormia em uma cama de palha com outras seis crianças. Este quarto, modesto até mesmo para os padrões da classe alta, parecia um palácio para ele. Na manhã seguinte, bem cedo, Elizabeth o chamou à biblioteca. As paredes estavam cobertas de livros do chão ao teto. Samuel nunca tinha visto tantos. A velha pegou um de uma prateleira mais baixa.

“Vamos começar com o alfabeto”, disse ela, abrindo o livro. “Mas primeiro, você precisa entender algo. O que estamos fazendo aqui é ilegal. Se alguém descobrir que estou lhe ensinando a ler, vão vendê-lo e me acusar. Você deve permanecer em absoluto silêncio. Ninguém pode descobrir.” “Por que a senhora está fazendo isso?”, perguntou Samuel, com a voz trêmula.

Elizabeth o encarou por um longo momento antes de responder. “Porque meu marido acumulou sua fortuna às custas de gente como você. Porque eu fechei os olhos por quarenta anos. Porque é hora de reparar parte do estrago feito.” Ela fez uma pausa, seus dedos traçando a capa do livro. “Meu marido morreu sem herdeiros.”

“Nunca conseguimos ter filhos. Seus primos aguardam impacientemente minha morte para herdar esta propriedade e todos os escravos que ainda trabalham em nossas terras. Mas eu me recuso a deixar que minha morte enriqueça ainda mais esses abutres. Eu tenho outro plano.” Samuel ouviu, fascinado e horrorizado ao mesmo tempo.

“Eu vou treiná-lo, ensiná-lo, prepará-lo e, quando chegar a hora, você herdará tudo.” O menino pensou ter ouvido errado. “Senhora, eu não entendo… como um escravo pode…?” “Você não será escravo a vida toda, Samuel. Eu já consultei um advogado do Norte, um homem que compartilha das minhas crenças.”

As leis são complexas, mas existem maneiras — maneiras legais — de libertá-lo e nomeá-lo herdeiro. Levará tempo, talvez até anos, mas estou determinado. O treinamento de Samuel começou naquele dia. Todas as manhãs, antes do amanhecer, ele ia à biblioteca com Elizabeth.

Ele estudava por duas horas antes que os criados acordassem. O menino aprendeu rapidamente e devorava as lições com uma sede de conhecimento que impressionava sua senhora. Em poucos meses, Samuel já lia fluentemente. Elizabeth também o ensinou a escrever, fazer contas, contar, contar e geografia. Ela recorria à vasta biblioteca de seu falecido marido, obras que Jacques Beaumont nunca lera, mas colecionara por vaidade. Oficialmente, Samuel era o criado pessoal da viúva.

Ele a acompanhava à cidade, carregava sua bagagem e lhe fazia companhia. As pessoas se surpreendiam com o afeto que ela sentia por aquele jovem escravo, mas ninguém suspeitava da verdadeira natureza do relacionamento deles. Os primos de Jacques Beaumont, Édouard e Guillaume Lafontaine, visitavam a tia regularmente.

Supostamente, o relacionamento deles se baseava em laços familiares, mas Elizabeth sabia que eles só estavam interessados ​​na herança. Cada visita era uma oportunidade para lembrar à velha senhora que eles eram seus únicos parentes e que cuidariam bem da propriedade após sua morte. Édouard, o mais velho, já possuía três plantações na Geórgia. Era um homem severo, cruel com seus escravos e ganancioso por lucro.

Guillaume, o mais novo, morava em Charleston com uma mesada deixada por seu pai e passava os dias bebendo e jogando cartas. Nenhum dos dois havia herdado a inteligência do tio, apenas sua avareza. Certa tarde, em novembro de 1843, Édouard apareceu inesperadamente.

Elizabeth estava tomando chá na sala de estar quando ele irrompeu, o rosto corado de raiva. “Tia, precisamos conversar”, anunciou ele bruscamente. “Sente-se, Édouard. Gostaria de uma xícara de chá?” “Não quero chá. Quero saber o que vocês pretendem fazer com aquela jovem escrava.” Elizabeth tomou um gole de chá, impassível. “Não sei do que você está falando.” “Estão comentando isso na aldeia.”

“Dizem que você o trata como um filho; ele come à sua mesa, dorme na casa principal. É uma vergonha para a família.” “Samuel é meu servo pessoal. Eu o trato como bem entendo. O que isso tem a ver com você?” Édouard inclinou-se para a frente. “Para mim, importa, porque esta propriedade um dia será minha, e não quero que seu afeto doentio por este escravo cause problemas.” “Complicações?” Elisabeth olhou-o diretamente nos olhos.

“Você quer dizer complicações legais que podem impedi-lo de herdar?” O primo empalideceu. “Não entendo o que você quer dizer.” “Claro que entendo. Você tem medo de que eu mude meu testamento, e com razão.” Édouard cerrou os punhos. “Você não ousaria. A lei é clara. Um escravo não pode herdar.” “Veremos”, respondeu Elisabeth com um sorriso misterioso.

O primo saiu furioso de casa, batendo a porta atrás de si. Samuel tinha ouvido tudo da biblioteca no andar de cima. Preocupado, desceu para se juntar a Elizabeth. “Eles vão causar problemas, senhora.” “Que tentem. Eu já vi coisas.”

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