O filhote desapareceu em um suave desmoronamento de lama e um grito tão penetrante que rachou o próprio leito do rio.
Não pensei mais nisso.
As pessoas sempre dizem isso depois de um desastre, mas, no meu caso, foi algo tão intenso que nem me assusta mais. Deixei cair minha câmera.
Dei um tapa.
Pulei.
A água me atingiu como uma parede de gelo e força. Subiu até meu peito perto da margem, depois mais fundo, e bateu com força nas minhas pernas.
O chão estava coberto de detritos. Galhos escondidos arranhavam minhas coxas. A lama tornava cada chute uma luta. O rio queria que tudo ali lhe pertencesse.
Eu tinha visto o que a época das cheias podia fazer. Um elefante arrasta tudo. Bezerros fogem. Duas pessoas em um barco de resgate viraram pouco depois, a cinquenta metros da segurança.
Agora eu sei mais.
Me molhei mesmo assim.
O potro apareceu diante de mim, sua cabeça balançando, seus cascos arranhando a água vasta demais para atravessar. Então desapareceu novamente.
“Vamos, vamos”, ouvi-me gritar. “Vamos, vamos.”
Como se a carga importasse.
Como se o rio se importasse.
Dei um salto para a frente, engoli um gole de água barrenta e, então, um tronco submerso atingiu meu ombro esquerdo com tanta força que o mundo ficou branco.
A dor percorreu meu braço. Meu aperto afrouxou. Meu corpo afundou. Por um segundo aterrador, fiquei sozinha, sozinha com outro ser que o rio decidira guardar.
Eu o vi novamente.