PARTE 2
Por alguns segundos, nem mesmo a chuva podia ser ouvida.
Elena colocou a bandeja em uma mesinha lateral. Observou o sol amarelo na bochecha de Rodrigo, a nuvem azul torta e aquela linha vermelha acima do nariz dele. Não viu uma brincadeira de criança. Viu o aluguel atrasado e a possibilidade de perder o emprego.
“Senhor, me perdoe”, disse ela, com a voz embargada. “Sofia não entende. Eu limpo, pago o que tenho que pagar. Não foi por maldade.”
Sofi abaixou o pincel.
“Sim, foi por boas intenções.”
Rodrigo sentou-se devagar. Não estava com raiva. Isso o desconcertava mais do que qualquer raiva. Tocou a bochecha e olhou para o amarelo nos dedos.
“Por que você disse que eu estava triste?”
Sofi abraçou o Capitão.
“Porque minha mãe faz essa mesma cara quando acha que eu dormi. A boca dela fica parada, mas os olhos estão agitados.”
Elena fechou os olhos.
Essa frase a expôs completamente.
Rodrigo se lembrou de detalhes que havia ignorado antes: Elena guardava metade da comida, atendia ligações em voz baixa e checava o celular ansiosamente depois das 16h.
“Alguém está te incomodando?”, perguntou ele.
Elena se enrijeceu.
“Eu não vim aqui para te causar problemas.”
Antes que ele pudesse insistir no assunto, uma voz rouca ecoou pelo corredor.
“Que cena comovente.”
Ignacio Cárdenas apareceu na porta com dois investidores. Ele vestia um terno azul-marinho, tinha um sorriso imponente e a confiança de um homem acostumado a dar ordens.
Os três encararam Rodrigo, com o rosto impassível.
Um dos investidores baixou o olhar para conter o riso.
Ignacio não conseguiu se conter.
“Eu te avisei, Rodrigo. Primeiro você traz a criança para dentro de casa, depois transformam sua casa num jardim de infância num bairro pobre.”
Elena colocou Sofi atrás de si.
“Foi minha responsabilidade, senhor. Não culpe minha filha.”
“Não estou pedindo permissão para dar minha opinião”, respondeu Ignacio. “E você, Rodrigo, deveria verificar seu cofre. Essas pessoas aprendem rápido onde estão os objetos de valor.”
Os olhos de Elena brilharam.
“Eu nunca toquei em nada que não fosse meu.”
“É o que todos dizem. Depois acham que fazem parte da família só porque podem entrar na cozinha.”
O comentário foi como um golpe.
Rodrigo se levantou. Ainda tinha um rubor nas bochechas, mas a ternura havia desaparecido de seu rosto.
“Tio, chega.”
Ignacio deu uma risadinha.
“Chega? Estão te desrespeitando na frente de sócios importantes.”
“Você é quem está sendo desrespeitoso.”
O silêncio se dissipou.
Naquela manhã, sua assistente lhe enviara um relatório estranho: acesso noturno ao seu escritório, cópias de plantas e pagamentos a fornecedores desconhecidos. A chave pertencia a Ignacio. Rodrigo queria acreditar que fosse um engano.
Agora ele entendia.
A crueldade do tio não era de seu caráter. Era uma cortina de fumaça.
Rodrigo pegou o controle remoto do sistema de segurança e ligou a tela no corredor. Elena viu datas, câmeras, horários. Ela não entendia tudo, mas sentia que algo sério estava prestes a acontecer.
O vídeo mostrava Ignacio entrando no escritório às 23h43 da noite anterior. Ele não estava sozinho. Um homem de boné o esperava perto da mesa. Ignacio abriu uma gaveta, tirou uma pasta preta e fotografou página por página com o celular.
Um dos investidores murmurou:
“Esse é o arquivo do Valle Esmeralda.”
Ignacio empalideceu, mas sua voz se recuperou rapidamente.
“Esse vídeo está fora de contexto.”
Rodrigo cerrou os dentes.
“Também está fora de contexto o fato de terem usado minha assinatura digital para autorizar pagamentos a uma empresa de fachada registrada em nome do seu motorista.”
Sofi perguntou em voz baixa:
“O cavalheiro elegante roubou?”
Ninguém respondeu.
Ignacio apontou o dedo para Elena.
“A culpa é dela. Desde que aquela mulher chegou, ela te manipulou. Ela te virou contra a sua própria família.”
Rodrigo sentiu vergonha. Não por causa da pintura. Porque ele havia acreditado em um homem que chamava conveniência de “sangue”.
“Não”, disse ele. “Ela trabalhou. A filha dela pintou. Você roubou.”
Ignacio se aproximou, com os dentes cerrados.
“Pense bem. Se você me arruinar, vai manchar o nome da sua família.”
“Meu nome já estava manchado. Só vou parar de varrer tudo para debaixo do tapete.” Então Rodrigo chamou a segurança e seu advogado. Ignacio tentou arrancar o celular dele, mas um guarda-costas o impediu. Os investidores se afastaram como se a elegância do corredor cheirasse a esgoto.
Elena queria ir embora.
“Senhor, eu não deveria estar aqui.”
Rodrigo olhou para ela. Pela primeira vez, não como seu chefe, mas como alguém que acabara de ver a verdade graças a uma garota de botas roxas.
“Você vai ficar. Preciso que ouça algo.”
Ele abriu outro arquivo na tela. Era uma gravação. A voz de Ignacio era clara, zombeteira, cruel.
“Deixe a faxineira em paz. Ela vai servir de distração. Se alguma coisa sumir, ela vai levar a culpa. Ela tem uma filha, mora longe e ninguém vai acreditar nela.”
Elena sentiu o chão sumir.
Eles a escolheram como culpada antes mesmo do crime ter sido cometido.
Sofi observou a mãe chorar e ergueu o pincel na direção de Rodrigo.
“Devo pintá-lo de vermelho de raiva agora também?”
Rodrigo não conseguiu responder.
Porque naquele instante o advogado da empresa chegou com dois auditores, e Elena percebeu algo no rosto de Ignacio.
Pior que a raiva: o medo.
O que você acha que Rodrigo deveria fazer agora: proteger Elena, mesmo que isso afete sua família, ou permanecer em silêncio para preservar o nome da família?