Ele olhou para ela, surpreso.
Respirou fundo.
“Sim, você foi injusta. Sim, doeu. Sim, muitas noites pensei em desistir. Eu não sou de pedra, Martín.”
Ele baixou a cabeça.
Aquele foi o golpe mais duro.
Não vou escrever.
Nem pensar.
Era compreensível que Maribel não fosse uma santa saída de um romance, que suportava tudo sem sentir nada.
Ela era uma mulher cansada que escolheu ficar, mesmo quando o próprio marido a fazia se sentir sozinha.
“Não quero que você peça desculpas só hoje”, disse ela. “Quero que você mude.”
Martín assentiu rapidamente.
“Vou mudar.”
“Não diga isso só para chorar. Mostre com atitudes.”
Ele pegou o cartão bancário da mesa e colocou na mão dela.
Então ele fez algo que ela não esperava. Ele pegou o celular, abriu o aplicativo do banco e mostrou a tela para ela.
“A partir de amanhã, vamos enfrentar isso juntos. As contas, os pagamentos, tudo. Não quero mais que você carregue esse fardo sozinha. E se não tiver dinheiro para cerveja, não tem. Se tiver dinheiro para um quarteirão, será usado para outro.”
Maribel o encarou por um longo tempo.
Como se quisesse acreditar nele, mas estivesse com medo.
“E seus amigos?”
Martin enxugou o rosto.
“Deixe-os rir.” Deixe-os falar o que quiserem. Nenhum deles vai construir uma casa para mim.”
Pela primeira vez na noite, Maribel sorriu de verdade.
Eles se sentaram para jantar.
O frango já estava quente, mas para Martin tinha gosto de banquete.
Entre uma garfada e outra, ele olhou para o mapa.
“Esta seria a cozinha?”, perguntou.
“Sim.”
“Com uma janela grande?” Maribel sorriu.
“Com uma janela grande.” Exatamente como você sempre quis para mim.
Martin levou a mão ao peito.
“Pensei que você tivesse esquecido toda aquela bobagem.”
“Não eram sonhos bobos”, disse ele. “Eram pesadelos, mas ainda eram sonhos.”
No dia seguinte, Martin não foi à fábrica.
Pediu licença não remunerada, embora estivesse chateado por ter faltado naquele dia.
Foi com Maribel até Tecámac.
Pegaram uma van, depois outro caminhão e caminharam por várias estradas de terra.
O terreno era cercado por uma tela enferrujada.
Não havia grama.
Não havia sombra.
Apenas chão duro, pedras e uma placa torta pintada de branco.
Mas quando Maribel destrancou a porta, Martin entrou como se estivesse testemunhando um milagre.
Abaixara-se, pegou um punhado de terra e começou a chorar novamente.
“Aqui está a buganvília”, disse ele, apontando para a entrada.
Martin sorriu, com os olhos vermelhos.
“E vou colocar uma cadeira aqui para poder te observar cozinhando pela janela.”
“Não invente coisas, cara”, disse Maribel, rindo em meio às lágrimas. “Primeiro precisamos construir paredes.”
Ele riu também.
As risadas deles soavam diferentes.