Durante três meses, aquele cheiro acompanhou seu casamento até sua cama.
Nunca se manifestava da mesma forma duas vezes. Algumas noites era úmido e mofado, como um porão esquecido pelo sol. Outras noites era mais pungente, um cheiro doce e pútrido que persistia sob o amaciante de roupas e o spray de lavanda, como se a própria decomposição tivesse aprendido a se esconder nos lençóis. Quando apagávamos a luz e nos aconchegávamos sob as cobertas perto de Miguel, ele ainda estava lá, observando.
A princípio, você culpou o óbvio.
O calor de Phoenix podia arruinar tudo se você deixasse. Suor, roupa suja, o cachorro do vizinho que às vezes se esfregava em cheiros que nenhum ser vivo deveria ter que suportar. Você desfazia a cama, lavava todos os lençóis, deixava as fronhas de molho em vinagre, trocava as roupas duas vezes e acendia velas suficientes para que seu quarto cheirasse a um spa extravagante. Por algumas horas após cada limpeza, o quarto parecia normal.
Então a noite caía, Miguel se deitava em seu lado da cama e o cheiro retornava como uma maldição que conhecia seus hábitos.
No começo, você tentou levar numa boa.
“Você percebe?”, perguntou certa noite, apoiada em um cotovelo, observando-o mexer no celular.
Ele mal ergueu os olhos. “Cheirar o quê?”