Tia Patrícia não gritou. Permaneceu em silêncio, com o olhar frio e distante, enquanto a levavam embora.
Em meio ao caos, a diretora se aproximou de mim. Ela não parecia mais uma figura de autoridade severa. Parecia uma mulher que tinha visto demais.
“Valéria”, disse ela suavemente. “A pasta vermelha… Lucía não me deu. Foi o pai de Mateo.”
Pisquei, confusa. “Sr. Rivas?”
“Ele encontrou os registros dos pagamentos que a esposa dele fez para sua tia. Ele não aguentou. Foi ele quem me contou tudo ontem à noite. Ele está na delegacia agora, prestando depoimento contra a própria esposa.”
A traição estava completa. A família Rivas havia desmoronado por dentro.
Uma nova manhã
Seis horas depois, eu estava sentada na varanda da frente. Meu pai havia trocado as fechaduras assim que chegamos. Minha mãe estava lá dentro, esfregando a cozinha como se pudesse apagar a lembrança da presença da irmã.
Olhei para as minhas mãos. Eu ainda estava com o uniforme azul. Meus sapatos gastos ainda estavam nos pés. Mas o peso no meu peito — o segredo que me oprimia — parecia diferente agora. Não era mais um segredo. Era uma verdade.
Mais tarde, naquela mesma noite, Lucía veio me visitar. Trouxe uma caixa de chá de verdade: camomila com mel.
“Você está bem?”, perguntou, sentando-se no degrau ao meu lado.
“Não sei”, admiti. “Tenho quinze anos, estou grávida e minha família está desestruturada.”
“Sua família não está desestruturada”, corrigiu Lucía, olhando para a janela onde meu pai estava sentado ao lado da minha mãe, segurando sua mão. “A podridão passou. Agora você pode crescer.”
Ela me entregou uma pequena fotografia. Era uma foto da irmã dela, de três anos antes, sorrindo em uma formatura.
“Não deixe que roubem seu futuro, Valeria. É isso que eles querem. Querem que você pense que é uma ‘mancha’. Mas olhe para mim. Eu fiquei. Eu consegui. E você também vai conseguir.”
O Primeiro Passo
Naquela noite, pela primeira vez em semanas, não tomei chá relaxante. Fiz uma refeição de verdade. Sentei-me à minha escrivaninha e abri meu caderno de matemática. Peguei o teste de gravidez positivo entre as páginas de equações de álgebra.
Dessa vez, não o escondi. Coloquei-o na minha mesa de cabeceira.
Olhei-me no espelho. Minha barriga ainda não estava aparecendo, mas a cobri com a mão.
“Vai ficar tudo bem”, sussurrei.
O caminho à frente seria o mais difícil que eu já havia enfrentado. Haveria comparecimentos ao tribunal, sussurros nos corredores e a realidade de ser uma mãe adolescente. Os comentários sobre “maus pais” não parariam da noite para o dia. O rótulo de “garota sem futuro” me assombraria por um tempo. Mas enquanto eu observava a lua nascer sobre a rua silenciosa, eu sabia de uma coisa com certeza:
Meu pai pode ter me deserdado. Minha tia pode ter tentado me apagar da existência. O mundo pode ter me visto cair.
Mas eles se esqueceram de uma coisa.
Quando você chega ao fundo do poço, o único caminho a seguir é para cima. E eu não estava me levantando apenas por mim. Eu estava me levantando pela vida dentro de mim que eles não conseguiam matar.
Peguei uma caneta e comecei minha lição de casa. Eu tinha muito o que fazer, mas pela primeira vez, eu não tinha medo da manhã.
Parte 3: A Reconstrução das Almas
O tribunal era menor do que eu imaginava. Não tinha as imponentes colunas de mogno dos filmes; cheirava a cera de chão e papel velho. Mas enquanto eu estava sentada no banco das testemunhas, o peso do ar parecia uma pressão física contra meus pulmões. Eu tinha dezesseis anos. Minha barriga era uma curva proeminente sob minha blusa branca de gestante — um desafio vivo a tudo que a família Rivas tentara esconder.
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