No quinto dia, Marina Luján apareceu à porta do hotel com café, pão doce, frutas e um olhar que Carmen conhecia muito bem.
Marina não era apenas sua sócia. Trabalhava com ela desde que a Herrera & Luján Events era um escritório emprestado, com duas mesas velhas e uma impressora que emperrava todos os dias. Ela tinha visto Carmen se reerguer após a morte de Teodoro, criar Diego e Lucía, pagar dívidas, perder clientes e recomeçar do zero.
“Tome um banho, coma e me conte tudo”, disse Marina.
Carmen não discutiu.
Uma hora depois, sentada perto da janela, Carmen contou tudo. A entrada. Mariana. A frase. O vídeo. O discurso.
Marina ouviu sem interromper.
Quando Carmen terminou, sua sócia pousou a xícara na mesa e disse: “Ok”.
Carmen olhou para ela.
Conhecia aquele tom.
Para Marina, “ok” significava que alguém tinha acabado de se meter em encrenca.
“Temos uma venda pendente”, lembrou Marina. A Aspenwood México vai concluir a compra da empresa em três semanas. São 4,2 milhões de dólares. Você não vai deixar essas pessoas te destruírem bem antes de assinar o contrato.
Carmen assentiu, embora por dentro ainda estivesse arrasada.
Naquela tarde, pela primeira vez em dias, ela atendeu a uma ligação de Diego.
“Mãe”, disse ele, com a voz estranhamente calma. “Preciso que você resolva uma coisa.”
Carmen fechou os olhos.
Ele não disse “Como você está?”
Ele não disse “Sinto muito.”
Ele não disse “Soube que você veio.”
Apenas “Preciso de você.” “Diga-me”, respondeu ela.
“A administradora do imóvel está me cobrando 74 mil dólares em dívidas pendentes. Mariana e eu conversamos e acreditamos que, assim como minha mãe, é sua responsabilidade quitá-las.”
Carmen congelou. “Minha responsabilidade?”
“Sim. Quer dizer, você entende de casamentos. Além disso, você tem dinheiro. Não é nada demais.”
Carmen olhou para a sacola de veludo ainda sobre a cômoda. “Diego, eu já paguei o casamento.”
Houve silêncio. “Do que você está falando?”
“Paguei 185 mil dólares à Hacienda Los Laureles há quatro meses. O salão, o banquete, as flores, a música, o bar, o cardápio e a hospedagem principal. Foi um presente meu para você.”
Do outro lado da linha, Diego respirou fundo, sem jeito. “Mariana não me contou isso.”
“Porque ninguém podia saber. Ela queria que você se orgulhasse. Ela queria te ajudar sem te humilhar.”
“Então você pode pagar o resto também.”
Aquela frase não soava como a do filho dela.
Parecia improvisada.
Ensaiada.
Como se alguém estivesse ouvindo atrás dele.
Carmen desligou sem gritar.
Então ela ligou para Viviana Téllez, a dona da fazenda e amiga de longa data.
Viviana levou três segundos para contar a verdade.
Na manhã do casamento, Rebeca Alvarado, mãe de Mariana, havia pedido uma torre de champanhe francês, um bar premium ampliado, um cardápio com cortes de carne importados, uma orquestra maior, uma mesa de sobremesas à noite, arranjos florais extras e fogos de artifício.
“Eu disse a ela que isso não estava incluído”, explicou Viviana. “Ela respondeu que a Sra. Carmen Herrera pagaria, porque ‘é para isso que servem as mães dos noivos’.” Carmen apertou o telefone contra a parede. “E Diego?”
“Os cartões deles foram recusados. Os dois.” Viviana baixou a voz.
“Carmen, tem mais uma coisa. Os Alvarados não estão bem. Arturo Alvarado está com sérios problemas com seus imóveis comerciais. Dívidas, processos de fornecedores, empréstimos atrasados. Aquele casamento foi uma farsa.” Carmen entendeu imediatamente. Não era uma celebração.
Era teatro.
Uma família em ruínas usou o casamento da filha para fingir poder.
E esperavam que ela pagasse por toda a farsa. Naquela noite, Lucía, sua filha caçula, grávida de 24 semanas, ligou.
“Mãe”, disse ela, cansada, “Diego me pediu para falar com você. Ele disse que, se você não pagar, Mariana vai ficar mal na frente da família dela.” Carmen sentiu um nó na garganta. “Ele perguntou sobre o bebê?” Lucía demorou demais para responder. “Não.” Aquele silêncio finalmente quebrou algo. Carmen não estava mais apenas magoada. Ela estava desperta.
No dia seguinte, ela ligou para seu advogado, Raúl Pineda, um velho amigo de Teodoro e consultor jurídico da família há anos. “Raúl”, disse Carmen, “preciso que você verifique o nome de Arturo Alvarado.” O advogado não respondeu imediatamente.
Aquele silêncio não era normal. “Carmen”, disse ele finalmente, “há algo que eu deveria ter lhe contado antes, mas pensei que ele tivesse sido preso.” Carmen sentiu um arrepio na espinha. “O que foi?” Raúl respirou fundo.
“Cinco meses atrás, um banco me ligou para verificar sua assinatura em um pedido de empréstimo comercial de US$ 1,2 milhão.”
Carmen se levantou. “Minha assinatura?”
“Sim. Como fiadora de uma empresa de propriedade de Arturo Alvarado.”
A sala pareceu girar. “Eu nunca assinei nada.”
“Eu sei”, disse Raúl. “Por isso interrompi o processo.”
Carmen olhou pela janela do hotel para as luzes de San Miguel.
E então ouviu o nome completo da empresa que lhe causou um arrepio.