“A amiga do papai?”
Pisquei, sentindo um frio na barriga. “Aos sábados? Tipo… o que ela faz?”
Ruby deu uma risadinha. “Coisas divertidas! Tipo ir ao fliperama e comprar biscoitos na cantina. Às vezes a gente toma chocolate quente, mesmo que o papai diga que é doce demais.”
Meu sangue gelou.
“Há quanto tempo você está saindo com a Molly?”
Ela começou a contar nos dedos. “Desde que você começou seu novo emprego. Então… faz um tempão.”
Ruby deu uma risadinha.
Meu novo emprego. Seis meses atrás, aceitei um cargo de gerente de projetos com um salário melhor. Vinha com um salário maior, mas também com mais estresse e uma grande desvantagem: eu trabalhava aos sábados. Me convenci de que valia a pena. Disse a mim mesma que meu marido, Dan, e Ruby ficariam bem. Que todos nós nos adaptaríamos.
Nos últimos seis meses, eu vinha trabalhando nos fins de semana, não porque queria perder panquecas e dias no parque, mas porque estava tentando sustentar nossa família. Meu novo emprego.
Minha filha não parava de falar, porque crianças não sabem quando acabaram de destruir toda a sua realidade.
“A Molly é tão bonita e legal. Ela cheira tão bem!” acrescentou, sonhadora. “Cheira a baunilha e… Natal!”
Dei um beijo de boa noite na Ruby e fui direto para o banheiro. Fechei a porta, tapei a boca com as duas mãos e chorei em silêncio.
Aqui vou admitir algo feio: não perguntei nada ao Dan naquela noite quando ele chegou do plantão noturno.
“Cheira a baunilha e… Natal!”
Eu queria. Mas sabia o que ele faria. Iria se fazer de difícil, me deixar paranoica, fazer parecer que nada tinha acontecido. Ele podia ser encantador quando queria.
Em vez disso, beijei-o, sorri e agi como se meu mundo não tivesse desmoronado.
Eu estava CHATEADA, mas decidi ser mais esperta, não mais agressiva.
Eu precisava da verdade. Sem meias respostas.
Então, elaborei um plano.
Na manhã seguinte, eu já sabia exatamente o que faria no sábado seguinte.
Então, fiz um plano.
Naquele sábado de manhã, disse ao meu chefe que não estava me sentindo bem. Tirei o dia de folga e disse ao Dan que meu turno havia sido cancelado devido a um problema de encanamento no trabalho. Até simulei uma ligação no viva-voz para parecer convincente.
Dan nem se abalou.
“Que ótimo”, disse ele, me dando um beijo na bochecha. “Você pode relaxar pela primeira vez.”
Eu sorri. “É. Talvez eu faça algumas coisas de última hora.”
Dan nem se abalou.
Mais tarde naquela manhã, ajudei Ruby a vestir seu casaco rosa fofinho e entreguei a ela as luvas com um sorriso forçado. Observei meu marido preparar uma sacola com lanches e suco.
“Aonde você vai hoje?”, perguntei, fingindo não saber.
Ele não hesitou. “Tem uma nova exposição de dinossauros no museu. Achei que devíamos ir ver. Ela está me implorando para irmos.”
Assenti. “Parece divertido.”
“Parece divertido.”
Assim que o carro arrancou, liguei o tablet da família. Usamos para compartilhar a localização, principalmente por segurança.
O pontinho azul começou a se mover, mas não em direção ao museu.
Segui o marcador, com o coração acelerado e as mãos suando. Estava três carros atrás. Continuei dizendo a mim mesma que estava ficando louca.
Que, afinal, eu os encontraria no museu. Que tudo tinha sido um mal-entendido.