Retirei as algemas de um prisioneiro e reconheci a tatuagem do meu falecido pai. Ele morreu no Vietnã três meses antes de eu nascer; nunca o conheci. 💔 E aquele homem de 67 anos, acusado de roubar remédios de uma farmácia, tinha no braço o mesmo distintivo militar que minha mãe mantém emoldurado na sala de estar há quarenta e oito anos.

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Parte 2.
O velho disse o nome, e eu o reconheci.

Não pela foto. Pela minha mãe. De quando eu era pequena e ela às vezes dizia, quase para ninguém em particular, “Güero, coitado do Güero”. Ela nunca explicou quem ele era. Eu pensava que fosse um amigo morto, mais um dos que foram levados pela guerra.

E ali, bem no tribunal, aquele velho prisioneiro estava me dizendo que o remédio de oitenta e nove dólares que ele roubou era para o Güero.

Güero. Aquele ao lado do meu pai na foto.

O juiz continuou esperando. “Senhor policial Ortega, tem algo a dizer?” Minha boca estava aberta e eu não conseguia falar.

E então o velho fez algo que eu não esperava. Ele apertou minha mão, a que eu ainda segurava no corrimão, e disse baixinho, rápido, como quem tapa uma panela antes que ela transborde:

“Não, filha. Não diga nada. Deixe por isso mesmo.” “Só me condene logo.”

Encarei-o, sem entender.

Um homem prestes a ser preso implorava para que eu NÃO o ajudasse.

“Por quê?”, perguntei.

E o velho, com os olhos marejados de lágrimas, respondeu com algo que me custou a compreender:

“Porque se eu falar, seu pai deixará de ser o que você pensa que ele era.”

O juiz não era tolo. Percebeu que havia algo estranho que não podia ser explicado por um roubo de oitenta e nove dólares. Decretou um recesso de quinze minutos e nos mandou, a mim e ao velho, para uma pequena sala ao lado, com outro policial parado na porta.

Assim que a porta se fechou, contei tudo de uma vez. Quem era Güero? Por que o remédio? Por que ele sabia meu nome?

O velho sentou-se lentamente, como se cinquenta e cinco anos tivessem subitamente caído sobre ele.

“Güero estava conosco naquela colina”, disse ele. “Ele tinha dezenove anos.” O mais novo dos quatro. Seu pai cuidava dele como um irmão mais novo.

Ela suspirou aliviada.

“El Güero não morreu, filha. Ele saiu de lá. Mas só saiu pela metade.”

Ele explicou. El Güero passou quarenta anos em uma cadeira de rodas, incapaz de andar, com a mente falhando lentamente. Sem esposa. Sem filhos. Sem uma pensão suficiente. E um homem, apenas um, lhe trazia remédios, trocava suas fraldas, limpava sua baba quando ele já não conseguia falar.

Aquele homem era o velho parado à minha frente.

“Cinquenta anos, filha”, disse ele, sem se gabar, quase envergonhado. “Não porque ele fosse bom. Por dever.”

E foi então que me dei conta, o momento que me fez sentir nojo de mim mesma: aquele homem que cheirava a rua, que estava prestes a ser condenado por um pequeno furto, tinha sido a única coisa que manteve El Güero vivo por meio século. Ele roubava comprimidos porque El Güero não tinha mais dinheiro para comprá-los.

Senti algo terrível. Alívio. Alívio por o “criminoso” ser, na verdade, um santo. Como se isso fosse resolver alguma coisa para mim.

Mas o velho interrompeu meu alívio.

“Não me olhe assim”, disse ele. “Eu não sou bom. Sou um dos que mantêm Güero naquela cadeira.”

“Como assim, você?”

“Naquela manhã, na colina, alguém se mexeu cedo demais. Alguém fez barulho onde não devia. E a metralhadora nos caçou, nós quatro.” Ele olhou para as mãos. “Estou pagando a Güero por aquele barulho há cinquenta e cinco anos.” Ele não disse quem fez o barulho. Ainda não.

Mas ele já havia plantado uma semente de esperança: Güero não acabou assim apenas por causa da guerra. Ele acabou assim por causa de um daqueles quatro. Por causa de um dos que riam na minha foto.

Pedi a ele que parasse por um instante. Não por ele. Por mim.

Peguei meu celular e procurei a foto que tirei anos atrás da sala de estar, aquela que minha mãe tira do armário todo domingo. Quatro meninos se abraçando, rindo, antes do avião. A vida inteira vi aquela imagem como um santuário. Quatro heróis. Meu pai, bem à direita, o mais alto.

Mostrei o celular para o senhor.

“Diga-me quem é quem.” O senhor passou o dedo trêmulo pela tela.

“Este é o Güero” — o que está ao lado do meu pai, o baixinho que ri mostrando todos os dentes. “Este, o da outra ponta, é o Lalo. Lalo ficou no morro. Nem conseguimos tirá-lo de lá completamente.”

Mais um nome para um túmulo que eu nem sabia que existia.

“E este”, disse ele, parando em um menino magro e sério, o único que não estava rindo na foto, “este sou eu.” Encarei aquele menino sério. Quantas vezes, quando criança, cobri a foto com o dedo, brincando de adivinhar quem era o mais corajoso. Nunca escolhia o sério. Eu não gostava do sério, e nem sabia por quê.

O sério era o único que ainda estava vivo. O único que carregava todos os outros.

E aqui está o que eu não contei a ninguém, nem mesmo ao meu marido.

Enquanto o velho falava, eu não estava triste. Eu estava… animada. Pela primeira vez em quarenta e oito anos, alguém estava me dando um pai de verdade, não um de bronze. E uma parte feia de mim não queria que ele parasse. Eu não me importava com Güero em sua cadeira. Eu não me importava com Lalo em seu túmulo. Eu queria mais do MEU pai. Eu o queria para mim.

Uma filha que passou a vida inteira rezando para uma foto, e descobre que o que ela mais queria não era que seu pai descansasse em paz. Era tê-lo. Mesmo que ele estivesse quebrado. Lembrei-me da tatuagem do velho. O 3/187 borrado no braço, exatamente como o emblema que minha mãe emoldurou abaixo da foto. O mesmo símbolo em dois lugares: numa parede, transformado em altar; no braço, transformado em maldição. O mesmo número. Uma família rezava para ele. A outra o carregava.

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