PARTE 2
O carro seguia pela Avenida Reforma sob uma garoa fina. A cidade cintilava nas janelas como se nada estivesse prestes a se quebrar.
Sófia permanecia sentada em silêncio, seu terno preto impecável, o rosto pálido, os dedos cerrados sobre uma pasta antiga.
Dentro dela estavam os documentos que seu pai, Aurélio Mendoza, lhe deixara antes de morrer.
Gonzalo nunca soube.
Quando se casou com Sófia, 20 anos atrás, ele não era um magnata. Era um empresário ambicioso, charmoso e endividado, com mais promessas do que dinheiro. Aurélio investiu nele, mas primeiro o obrigou a assinar um acordo pré-nupcial.
Se Gonzalo cometesse adultério comprovado ou tentasse prejudicar a fortuna da família, perderia o controle de suas ações.
51% do Grupo Altavista passariam para Sófia e Santiago.
Gonzalo assinou, rindo.
Ele pensava que eles nunca precisariam dele.
Ele acreditava que uma esposa que permanecia em silêncio também era uma esposa derrotada.
Santiago assistia à transmissão em seu tablet.
“Jimena desviou 68 milhões de pesos em seis meses”, disse ele. “Ela usou empresas de fachada em Monterrey, Panamá e Texas. Papai autorizou despesas sem verificar porque estava ocupado demais se achando esperto.”
Sófia fechou os olhos.
“Ele sabia do caldo?”
“Não tenho certeza. Mas ele sabia que ela queria que você assinasse. Ele sabia que eles planejavam dizer que você era mentalmente instável.”
Isso doeu ainda mais.
Porque às vezes a traição não é sobre assumir a culpa. Às vezes é ver você apanhar e não fazer nada.
O motorista entrou pela porta dos fundos do hotel. Em um corredor reservado, Ernesto Valdés, advogado da família Mendoza, os esperava com uma pasta lacrada e uma expressão tensa.
“Sófia”, disse ele. “Seu pai deixou tudo preparado caso Gonzalo revelasse suas verdadeiras intenções.” Ela engoliu em seco.
“Então vamos usá-lo hoje.”
Dentro do salão, Jimena segurava o microfone.
“Meu marido e eu sempre acreditamos em ajudar os outros”, disse ela, com voz suave.
O apresentador sorriu sem jeito. Os convidados aplaudiram. Gonzalo olhou para ela com orgulho, ou talvez arrogância.
Então as portas principais se abriram.
Santiago entrou sozinho.
O barulho foi diminuindo aos poucos.
Os jornalistas se viraram. Os empresários colocaram seus copos sobre as mesas. Jimena empalideceu.
Gonzalo franziu a testa.
“O que você está fazendo aqui?”
Santiago caminhou sem pressa até o palco.
“Vim esclarecer um mal-entendido, pai.”
O apresentador tentou intervir, mas Santiago pegou o microfone com uma confiança inabalável.
“Boa noite. Sou Santiago Mendoza, filho de Sofía Mendoza e Gonzalo Arriaga.” Esta noite, muitos parabenizaram meu pai por vir com a esposa.
Ele fez uma pausa.
“O problema é que aquela mulher não é a esposa dele.”
Um murmúrio percorreu a sala.
Jimena agarrou o microfone.
“Santi, não faça isso.”
“Não me chame de Santi”, respondeu ele. “Esse é o nome da minha mãe.”
Algumas câmeras se aproximaram.
Gonzalo subiu ao palco, com o rosto sério.
“Desça aqui agora mesmo.”
“Ainda não.”
Santiago tirou um envelope preto.
“Primeiro: prova certificada do relacionamento entre Gonzalo Arriaga e Jimena Torres nos últimos dois anos. Hotéis, viagens, recibos e mensagens.”
Fotografias apareceram nas telas da sala.
Gonzalo e Jimena em Cancún.
Gonzalo e Jimena em uma suíte em Monterrey.
Gonzalo colocou uma pulseira no pulso de Jimena.
A mesma pulseira que ela usava agora.
A sala se encheu de murmúrios.
“Segundo”, continuou Santiago, “transferências totalizando 68 milhões de pesos desviadas das contas do Grupo Altavista para empresas ligadas à Sra. Torres.”
Jimena deu um passo para trás.
“Isso é mentira!”
Extratos bancários, datas, assinaturas e autorizações apareceram nas telas.
Santiago olhou para ela sem ódio.
“Terceiro: uma gravação de áudio onde a Sra. Torres pergunta como drogar uma mulher sem deixar vestígios. Esta noite, minha mãe foi medicada sem o seu consentimento.”
A sala ficou em silêncio.
Gonzalo se virou para Jimena.
“O que você fez?”
Ela abriu a boca, mas nada saiu.
Então Santiago mostrou uma cópia autenticada.
—E quarto: o acordo pré-nupcial assinado há 20 anos por Gonzalo Arriaga. Devido a adultério comprovado e prejuízo financeiro, 51% das ações do Grupo Altavista foram transferidas para Sofía Mendoza e seu filho.
Foi então que o escândalo explodiu.
Um sócio se levantou de um salto. Uma mulher exclamou: “Meu Deus!” Jornalistas começaram a transmitir ao vivo com seus celulares.
Gonzalo gritou para a segurança.
“Parem com essa transmissão!”
Santiago nem se mexeu.
“Não podemos. O sinal já está sendo compartilhado em 12 contas e 3 veículos de mídia nacionais.”
Gonzalo empalideceu.
Pela primeira vez em muitos anos, o dono do estabelecimento parecia um convidado perdido.
Santiago se virou para a entrada lateral.
“A verdadeira Sra. Mendoza está aqui.”
A porta se abriu.
Sofía entrou vestindo um terno preto, com os cabelos presos e a pulseira que faltava no pulso. Ela não usava nenhuma joia. Não precisava de nenhuma.
Os convidados se afastaram.
Alguns a reconheceram imediatamente. Outros baixaram o olhar, envergonhados por terem aplaudido a mulher.
Impostora.
Jimena olhou para ela como se estivesse olhando para alguém que devia estar dormindo, trancada ou quebrada.
Mas Sofía caminhou com confiança até o palco.
Pegou o microfone.
“Jimena, tire meu anel.”
Ninguém respirou.
Jimena olhou para Gonzalo, esperando que ele a defendesse.
Ele não disse nada.