Em silêncio, Armando desceu até o escritório no primeiro andar às três da manhã, depois que a música lá embaixo parou e os convidados foram embora, deixando a sala de estar uma bagunça de garrafas vazias e bitucas de cigarro.
Ele abriu o cofre escondido atrás da velha estante. Não havia ouro lá dentro, mas algo mais valioso para o que ele viera buscar: as escrituras originais da casa, o testamento de Rosario deixando-lhe 100% da propriedade e uma procuração que Julián o enganara para assinar um ano antes, alegando ser para “documentos de seguro”, mas que na verdade lhe concedia controle sobre uma de suas contas secundárias.
Armando passou o resto da noite trabalhando. Cancelou os cartões de crédito adicionais de Julián e Brenda com um único clique na plataforma de internet banking. Congelou as contas correntes e transferiu cada centavo de suas economias para uma nova conta internacional secreta que abrira naquela mesma manhã.
Na madrugada de domingo, ele ligou para duas pessoas: seu advogado de longa data, o advogado Gutiérrez, e sua neta Sofía, filha que Julián teve com sua primeira esposa, a quem Brenda havia afastado por meio de intrigas.
“Sofía, filha”, disse Armando firmemente. “Preciso que você venha me buscar. Traga a caminhonete do seu marido. Preciso ficar com você por alguns dias.”
PARTE 3: O Dia do Acerto de Contas Final
Na manhã de segunda-feira, a casa em Narvarte estava estranhamente silenciosa. Julián e Brenda acordaram tarde, ainda se recuperando da ressaca da festa. Brenda, com o telefone na mão, tentou pedir o café da manhã por um aplicativo, mas a tela exibiu uma mensagem em letras vermelhas: “Cartão recusado. Fundos insuficientes.”
“Julián, seu pai mexeu no cartão, não está funcionando”, gritou ela da cozinha, com a voz estridente.
“Julián, seu pai mexeu no cartão, não está funcionando”, gritou ela da cozinha, com a voz estridente. Julián, furioso, desceu as escadas de pijama direto para o quarto do pai para confrontá-lo, mas a porta estava escancarada. O quarto estava impecável, sem roupas, e a cama perfeitamente arrumada. A única coisa que restava no criado-mudo era um envelope pardo com o nome de Julián escrito na caligrafia perfeita de Dom Armando.
Ao abri-lo, Julián não encontrou uma carta de despedida, mas uma conta detalhada.
Armando havia somado todas as despesas dos últimos quatro anos: o aluguel estimado do lugar onde moravam, as contas de luz, água, gás e internet, o custo da gasolina, as refeições de Brenda e os empréstimos atrasados. O total chegava a mais de 680.000 pesos. No final do documento, preso com um clipe de papel, havia uma ordem judicial de despejo imediato, assinada por um juiz cível, com prazo de 48 horas.
“O que é isso?” — gaguejou Julián, sentindo o chão tremer sob seus pés.
Naquele instante, a campainha tocou. Ao abrir a porta, Julián se viu cara a cara com o Sr. Gutiérrez, acompanhado por dois chaveiros e dois policiais comunitários. Atrás deles, estacionada ao lado da buganvília onde ainda repousava o prato de croquetes da noite anterior, estava a caminhonete de Sofia. Dom Armando saiu da caminhonete, vestido com um terno impecável, sem avental, e com uma dignidade que Julián não via nele há anos.
— Pai, que absurdo é esse? — gritou Julián, tentando intimidá-lo. — Você não pode nos expulsar! Esta casa também é minha!
— Não mais, Julián — respondeu Dom Armando com uma calma arrepiante. — Esta casa não é mais minha, nem sua. No sábado à noite, depois da sua “brincadeira” com os croquetes, assinei a escritura de transferência da propriedade para a única pessoa desta família que tem algum valor: sua filha, Sofia. Ela é a nova proprietária.
Brenda veio até a porta, pálida, com as unhas postiças cravadas na moldura.
“Isso é ilegal! Temos um contrato com o Lar Dorado para o Dom Armando!”, gritou ela, cometendo o erro de revelar seu próprio plano.
Dom Armando deu-lhe um meio sorriso, olhando para ela com pena.
“A cobrança de 52 mil pesos do Lar Dorado já foi cancelada pelo banco devido a uma denúncia de fraude e tentativa de abuso financeiro contra idosos. O advogado já apresentou queixa-crime ao Ministério Público.” “Se você não quiser passar a noite na cadeia, sugiro que faça as malas nos próximos dez minutos.”
Julián caiu de joelhos na varanda, exatamente no mesmo lugar onde, quarenta e oito horas antes, havia humilhado o pai. Tentou chorar, estendeu a mão para os sapatos de Dom Armando, implorando por perdão, repetindo que “tudo não passara de uma brincadeira de mau gosto”.
Mas Dom Armando deu um passo para trás, evitando o contato. Olhou para o filho uma última vez, não com ódio, mas com a fria indiferença de quem encerrou um capítulo para sempre.
“Como você disse, Julián… a culpa foi minha”, declarou o velho.
Dom Armando se virou, entrou no carro com a neta, Sofia, e partiu pelas ruas de Narvarte, deixando para trás os gritos de Brenda e os soluços desesperados de Julián, que finalmente…Ele ficou sem casa, sem dinheiro e com sua verdadeira máscara jogada na calçada, bem ao lado do prato vazio do Capitão.