Naquela semana, seu avô o acompanhou para ver alguns apartamentos perto do seu trabalho, em um bairro tranquilo de Toluca. Nada de luxo: um prédio de três andares, escadas estreitas, uma cozinha minúscula, um banheiro simples. Mas tinha sua própria porta, um contrato e paz e sossego.
Na terça-feira à noite, Dom Rogelio ligou.
Mateo atendeu do corredor da casa dos avós.
“Você fez birra de novo”, disse o pai, sem cumprimentá-lo. “Volte e conversamos.”
“Podemos conversar. Mas eu não vou voltar.”
Houve uma pausa.
“Você acha que seus avós vão te sustentar para sempre?”
“Eles não estão me sustentando. Estão me ajudando a sair daqui.”
“Depois de tudo que fizemos por você.” Mateo apertou o celular com força.
“O que eles fizeram por mim que não fizeram por Laura?”
“Nós criamos você.”
“Eles a criaram também.”
A voz de Dom Rogelio baixou, tornando-se mais áspera.
“Você é um homem. Era a sua vez de responder.”
Lá estava ele. A regra que nunca haviam deixado tão clara. Laura podia cair, chorar, gastar dinheiro, cometer erros. Mateo tinha que suportar tudo porque “ele era um homem”, porque “ele não tinha filhos”, porque “ele podia fazer mais”.
“Eu respondi 7 anos”, disse Mateo. “Não mais.” Seu pai desligou.
Duas semanas depois, Mateo assinou seu primeiro contrato de aluguel. Seu avô Jacinto estava ao seu lado. Ele não pagou por ele. Não decidiu por ele. Apenas esperou enquanto Mateo lia cada página.
“Leia tudo”, disse ele. “Não deixe ninguém te assustar de novo com papéis que você não entende.”
Mateo assinou.
O apartamento tinha uma janela com vista para um jacarandá seco, um conjunto de jantar usado que ele comprou online e um colchão que ele, seu avô e um amigo do trabalho carregaram escada acima. Naquela primeira noite, ele comeu tacos de suadero sentado no chão. Ninguém lhe pediu dinheiro. Ninguém bateu à porta para lhe pedir um favor. Ninguém o chamou de egoísta por respirar.
Mas a paz não durou muito.
No sábado, Laura apareceu na entrada do prédio com seus dois filhos, três malas de roupa e o rosto corado de raiva.
“Vim deixar as crianças”, disse ela. “Mamãe está chorando por sua causa, e eu tenho uma entrevista.”
Mateo bloqueou a porta com o corpo.
“Não.”
Laura deu uma risada amarga.
“Como assim?”
“Não posso cuidar deles.”
“São seus sobrinhos.”
“E você é a mãe deles.”
Laura olhou para ele como se não o reconhecesse.
Então, pegou o celular e reproduziu uma mensagem de voz no viva-voz.
Era a voz de Dom Rogelio.
“Deixe-os lá. Vamos ver se você realmente tem coragem de fechar a porta para duas crianças.”
Mateo sentiu um soco no peito.
E antes que pudesse responder, ouviu outra voz na gravação.
A de sua mãe, dizendo algo que ele jamais imaginara ouvir.