PARTE 2
A porta se abriu completamente, revelando a figura imponente da advogada Morales. Ela vestia um terno escuro sob medida e carregava uma pasta de couro preta da qual se projetava uma pasta grossa repleta de documentos. Seus olhos penetrantes percorreram a sala em um instante, detendo-se primeiro no rosto pálido de Camila e depois nas posturas defensivas de Rodrigo e Bárbara. Atrás da advogada, dois policiais da Cidade do México aguardavam no corredor, com semblantes sérios.
“Boa noite”, disse Morales, sua voz cortando a tensão como uma lâmina de barbear. “Antes que qualquer um de vocês tome uma única decisão sobre a vida da minha cliente ou o futuro desta criança, vocês terão que explicar às autoridades por que os freios do SUV de Camila foram adulterados intencionalmente.”
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que o zumbido das luzes fluorescentes soou como um grito. Rodrigo soltou lentamente o braço de Santiago. Camila, presa em sua prisão física, sentiu uma onda de alívio percorrer sua espinha, mas sabia que o pesadelo estava longe de terminar. Ela conhecia seu marido; Ela sabia que ele estava calculando uma saída.
“Quem a deixou passar?” perguntou Rodrigo, tentando manter a voz firme, embora uma gota de suor frio escorresse por sua testa. “Minha esposa sofreu um acidente trágico na rodovia para Cuernavaca. É cruel vir aqui inventar teorias da conspiração enquanto ela luta pela vida.”
“Um acidente muito conveniente para suas finanças, Rodrigo”, respondeu o advogado Morales, dando um passo para o centro da sala. “Tenho em mãos o laudo de um perito mecânico certificado. Os freios do caminhão não falharam por desgaste. Os tubos de freio foram cortados com uma ferramenta de precisão três horas antes de ela sair de casa em Coyoacán.”
Os saltos de Barbara bateram no chão enquanto ela dava um passo à frente, colocando-se entre Rodrigo e o advogado. Sua respiração estava controlada, mas a veia pulsante em seu pescoço denunciava seu pânico.
“Isso não prova absolutamente nada”, cuspiu Barbara com desdém. “Qualquer um poderia ter entrado na garagem. A insegurança nesta cidade está pior do que nunca. É uma tragédia, mas não um crime familiar.”
“Nem todo mundo sabia que Camila pegaria a estrada antiga naquela noite, no meio da tempestade”, rebateu Morales, tirando um documento da pasta. “E, acima de tudo, nem todo mundo se beneficiaria tão direta e imediatamente com a morte dela.”
Rodrigo soltou uma risada oca, um som forçado que ecoou pelas paredes do hospital. “Benefício? Minha esposa está em coma, tenho uma dívida enorme com o hospital e estou criando meu filho sozinho. De que benefício ela está falando?”
“Estou falando do testamento, Rodrigo”, afirmou a advogada. “O testamento que sua esposa alterou exatamente duas semanas antes do acidente.”
A temperatura no quarto pareceu cair dez graus. Bárbara recuou, esbarrando na maca de Camila.
“Isso é impossível”, gaguejou a irmã mais velha, finalmente perdendo sua máscara de perfeição. “Ela jamais teria feito algo assim sem me consultar. Sou confidente dela, sou do mesmo sangue. Compartilhávamos tudo.”
“Jamais o quê, Bárbara?” perguntou Morales com uma calma letal. “Jamais descobriria que você e seu cunhado estavam se encontrando secretamente há oito meses em um apartamento em Polanco? Ou que Rodrigo usou o dinheiro da empresa da família para pagar uma dívida de três milhões de pesos de jogos de azar ilegais?”
Por dentro, Camila soltou um grito silencioso. A dor dos ossos quebrados e do crânio fraturado não era nada comparada à agonia de ouvir a dura verdade. As suspeitas que a atormentavam há semanas, as mensagens apagadas do celular de Rodrigo, os encontros estranhos de Bárbara… tudo era real. Sua própria irmã e o pai de seu filho a haviam traído por dinheiro e luxúria.
“Esse documento não tem validade legal nenhuma”, gritou Rodrigo desesperadamente, apontando para os papéis. “Camila estava medicada, sofria de paranoia. Estava louca. Minha cunhada pode testemunhar que sua saúde mental estava se deteriorando. Qualquer juiz invalidaria essa bobagem!”
“Camila estava perfeitamente lúcida, e eu tenho as avaliações psicológicas para provar”, respondeu Morales, imperturbável diante dos gritos. “Ela criou um fundo fiduciário para salvaguardar o futuro de Santiago. E deixou instruções precisas e irrevogáveis: se ela morresse ou ficasse incapacitada, a guarda total da criança passaria legalmente para mim e para uma instituição de proteção até que a criança completasse 18 anos. Nenhum de vocês dois pode tocar em um único centavo das contas, nem vender um único tijolo da casa, nem chegar perto da criança.”
Ali, na escuridão, Camila compreendeu o verdadeiro plano. Eles não queriam apenas o dinheiro fácil. Não queriam apenas encobrir o roubo da empresa.