“Faz muito tempo”, disse ele. “Vai ser difícil.”
“Eu sei”, respondi. “Alguém se esforçou muito para que eu pudesse estar aqui. Não vou desperdiçar isso.”
“Você está bem?”
Eles me prenderam a um arnês e me conectaram a uma esteira.
Minhas pernas balançavam. Meu coração disparava.
“Você está bem?”, perguntou Miguel.
Assenti com a cabeça, com lágrimas nos olhos.
“Só estou fazendo algo que meu tio queria que eu fizesse”, disse.
Fiquei de pé, apoiando a maior parte do meu peso nas pernas, por alguns segundos.
A máquina ligou.
Meus músculos gritaram. Meus joelhos cederam. O arnês me segurou.
“De novo”, eu disse.
Repetimos o exercício.
Na semana passada, pela primeira vez desde os quatro anos de idade, fiquei de pé com a maior parte do meu peso nas pernas por alguns segundos.
Não foi bonito. Eu tremi. Eu chorei.
Devo perdoá-lo?
Mas eu estava de pé.
Eu conseguia sentir o chão.
Na minha cabeça, eu ouvia a voz do Ray: “Você vai viver, garota. Está me ouvindo?”
Eu o perdoo? Alguns dias, não.
Alguns dias, tudo o que sinto é o que ele escreveu naquela carta.
Ele não fugiu do que fez.
Outros dias, me lembro das mãos ásperas dele sob meus ombros, das tranças horríveis, dos discursos de “você não é menos importante”, e acho que venho o perdoando aos poucos há anos.
O que eu sei é o seguinte: ele não fugiu do que fez. Ele passou o resto da vida remoendo isso, um alarme noturno, um telefonema, uma lavagem de cabelo após a outra.
Ele não podia desfazer o acidente. Mas ele me deu amor, estabilidade e agora uma porta.
Talvez eu role por ela. Talvez um dia eu consiga andar.
De qualquer forma, ele me levou o mais longe que pôde.
O resto é meu.
Acho que venho o perdoando aos poucos há anos.