“Ele precisa de amigos”, ela disse a ele.
“Ele não deveria quebrar o pescoço na sua escada”, ele resmungou, mas depois me empurrou pela quadra e me apresentou a todas as crianças como se eu fosse sua VIP.
Ele me levou ao parque.
As crianças olhavam fixamente. Os pais desviavam o olhar.
Minha primeira amiga de verdade.
Uma menina da minha idade se aproximou e perguntou: “Por que você não consegue andar?”
Eu congelei.
Ray se agachou ao meu lado. “As pernas dele não obedecem ao cérebro. Mas ele consegue te ganhar no jogo de cartas.”
A menina sorriu. “Não, ele não consegue.”
Essa era a Zoe. Minha primeira amiga de verdade.
Ela parecia péssima.
Ray fazia isso com frequência. Ele se colocava diante do desconforto e o amenizava. Quando eu tinha dez anos, encontrei uma cadeira na garagem com um barbante amarrado no encosto, meio trançado.
“O que é isso?”, perguntei.
“Nada. Não toque.”
Naquela noite, Ray sentou-se na minha cama atrás de mim, com as mãos tremendo.
“Fica quieta”, murmurou, tentando trançar meu cabelo.
Eu estava horrível. Achei que meu coração fosse explodir.
“Essas garotas falam tão rápido.”
Quando a puberdade chegou, ele entrou no meu quarto com uma sacola plástica e o rosto vermelho.
“Comprei… coisas”, disse, olhando para o teto. “Para quando as coisas acontecerem.”
Absorventes, desodorante, rímel barato.
“Você assistiu a vídeos no YouTube?”, eu disse.
Ele fez uma careta. “Essas garotas falam tão rápido.”
“Está me ouvindo? Você não é diferente.”
Não tínhamos muito dinheiro, mas eu nunca me senti um peso. Ele lavou meu cabelo na pia da cozinha, com uma mão na minha nuca e a outra jogando água por cima.
“Tudo bem”, murmurou. “Pode deixar comigo.”
Quando eu chorava porque nunca dançaria ou sequer estaria na multidão, ele se sentava na minha cama, com o maxilar cerrado.
“Você não é menos importante. Está me ouvindo?” “Você não é menos importante.”
Na minha adolescência, ficou claro que não haveria milagre.
Ray transformou aquele quarto em um mundo.
Eu conseguia me sentar com apoio. Conseguia usar minha cadeira por algumas horas. Passei a maior parte da minha vida no meu quarto.
Ray transformou aquele quarto em um mundo. Prateleiras ao alcance. Um suporte improvisado para tablet que ele soldou na garagem. No meu aniversário de vinte e um anos, ele construiu um vaso perto da janela e o encheu de ervas.
“Assim você pode cultivar aquele manjericão que tanto critica nos programas de culinária”, disse ele.
Comecei a chorar.
Então Ray começou a se cansar.
“Meu Deus, Hannah”, disse Ray, em pânico. “Você odeia manjericão?”
“É perfeito”, solucei.
Ele desviou o olhar. “É, então. Tente não matá-lo.”