Ele parou em frente ao espelho, ajustando a gravata com cuidado excessivo. “Querida, já conversamos sobre isso. Os médicos disseram que as visitas a estressam. Deixe que eu cuido disso.”
“Ah, tudo bem.”
Ele se virou e beijou minha testa, como sempre fazia quando queria encerrar a conversa. “E você é um anjo por se importar. Mas a viagem é cansativa e você está exausta. Deixe que eu carregue isso para você.”
Deixei para lá. Eu sempre deixava para lá.
Naquela tarde, escrevi outro cheque de três mil dólares e o deslizei pelo balcão da cozinha.
“De volta à ala de reabilitação?”, perguntei a Michael.
“Agora estão nos cobrando pela fisioterapia. O plano de saúde não cobre.”
“Michael, este é o quarto cheque este mês.”
Ele segurou meu rosto entre as mãos como se eu fosse algo precioso. “Você está salvando a vida dela. Você sabe disso, não é? Minha mãe vai andar de novo por sua causa.”
Eu queria acreditar nele. Precisava.
Mas naquela noite, encontrei um recibo no bolso do paletó dele, de um restaurante do qual eu nunca tinha ouvido falar, a noventa e seis quilômetros do hospital. E no pescoço, ele usava aquele perfume novo de novo, intenso e floral, nada parecido com o meu.
No dia seguinte, liguei para o hospital. Uma jovem enfermeira atendeu.
“Gostaria de visitar a Patrícia na ala de reabilitação, por favor. Ela é sua nora.”
Houve um longo silêncio. “Senhora, ninguém a visitou hoje. Tem certeza de que esta é a ala certa?”
O toque do celular ecoou no meu ouvido.
Meu polegar permaneceu pressionado no botão vermelho muito depois da tela ficar preta.
Na outra mão, a camisa que eu estava dobrando pendia solta, a gola escorregando pelos meus dedos e se amontoando no meu pulso como algo já descartado.
Naquela noite, tentei perguntar a Michael com a minha calma habitual.
“Michael, quando foi a última vez que você viu sua mãe?” “Esta manhã, querido. Por quê?”
“A enfermeira disse que não havia visitas hoje.”
Ele riu. “Querida, essas enfermeiras trabalham em turnos de doze horas. Metade delas não sabe quem é quem. Os médicos me pediram especificamente para não trazer mais ninguém por enquanto. Você precisa confiar em mim.”
“Eu confio em você.”
Disse isso como uma oração, como se dizer em voz alta pudesse tornar tudo real novamente.
Três dias depois, Michael fechou a mala ao lado da cama.
“Conferência de três dias em Denver. Vou checar meu celular sempre que puder.”
“Diga à sua mãe que eu a amo.”
“Eu sempre digo.” Michael me deu um beijo e saiu antes que o café esfriasse.
Naquela tarde, meu telefone tocou enquanto eu dobrava as camisas dele. O número não estava salvo.
“É a nora da Patrícia?”
“Sim, quem é?”
“Aqui é a Dra. Hensley. Estou tentando falar com o Michael há horas. O telefone dele só dá caixa postal. O número dele estava cadastrado como contato secundário de emergência da Patricia.”
Meus dedos congelaram na gola da camisa que eu segurava. “O que está acontecendo? A Patricia está bem?”
“O estado dela piorou consideravelmente. A senhora precisa vir agora. E, senhora, precisamos conversar sobre algumas coisas quando a senhora chegar. Coisas sobre o atendimento médico dela.”
“Que coisas?”
“Por favor. Venha.”
Peguei minhas chaves, minha bolsa e meu casaco de uma vez.
Enquanto dirigia pela rodovia em direção a um hospital que eu não via há um mês, percebi que não fazia ideia do que realmente estava acontecendo dentro daquelas paredes. E eu estava prestes a descobrir por conta própria.
Meus pneus cantaram quando entrei no estacionamento do hospital, antes mesmo de me lembrar de ter saído da rodovia.
Corri pelas portas de correr, passei pela recepção, por um zelador com um esfregão na mão, meu casaco escorregando de um ombro.
Antes de chegar ao elevador, uma enfermeira parou bem na minha frente. Ela era pequena, com cabelos grisalhos nas têmporas, e deslizou um bilhete dobrado na palma da minha mão.
“Liguei para você”, sussurrou. “Leia isto imediatamente. Seu marido está mentindo para você.”
A princípio, meus dedos não obedeciam.
Dentro do bilhete, lia-se: “Vá para o quarto 120. Vou lhe mostrar as imagens da câmera de segurança. Por favor, mantenha a calma e não conte a ninguém.”
Segui-a por um corredor lateral. Ela abriu a porta de um pequeno escritório e me fez um gesto para que eu me sentasse.
Um monitor acendeu à minha frente.
“Preciso que você entenda algo antes de apertar o play”, disse ela. “O que vou lhe mostrar agora, eu deveria ter feito semanas atrás. A administração do hospital finalmente me permitiu copiar as imagens depois que Patricia fez uma denúncia.”
“Só a toque”, sussurrei.
A gravação começou.
Lá estava Michael no corredor da ala de reabilitação, mas ele não estava indo em direção ao antigo quarto de Patricia. Ele estava de mãos dadas com uma mulher. Uma jovem, com uma curva visível sob seu suéter macio.
Ele a beijou perto do elevador da mesma forma que me beijou no dia do nosso casamento.
“Não”, sussurrei.
A enfermeira apertou outro botão.Arquivo. Outra data. O escritório administrativo.