Então ela percebeu que as luzes da casa ainda estavam acesas.
Mas não havia som.
Nem televisão.
Nenhum passo.
Apenas silêncio.
“Fui até a janela”, disse Dona Teresa. “Vi a mesa posta, uma cadeira virada e um dos sapatos dela no corredor. Depois olhei para o vaso. Vi a garrafa quebrada.”
“Por que você não chamou a polícia?”, perguntou Lucía.
Dona Teresa baixou o olhar.
“Porque eu não tinha certeza. E porque sempre achamos que podemos estar enganadas.”
Mariana segurou as mãos dela nas suas.
Ela não estava enganada.
A vizinha caiu em prantos.
“Me perdoe por não ter vindo antes.”
Mas o golpe mais duro veio ao anoitecer.
Ramírez voltou com uma pasta.
“Verificamos o celular da Vanessa.”
Mariana sentiu náuseas.
“O que eles encontraram?”
O comandante hesitou.
Então leu uma mensagem.
Vanessa: E o menino também?
Alejandro: Não há pontas soltas.
Mariana não gritou.
Não chorou.
Simplesmente olhou para a cama onde Noah dormia com uma máscara de oxigênio.
E compreendeu que o homem a quem seu filho chamava de pai não estava errado.
Ele tinha um plano.
PARTE 3
Por três dias, Mariana viveu em meio ao som dos monitores e ao medo de que Noah parasse de respirar enquanto dormia.
Toda vez que uma enfermeira entrava, ela acordava sobressaltada.
Toda vez que alguém lhe trazia comida, seu estômago se contraía.
O cheiro de coentro, que antes lhe lembrava a comida que sua mãe preparava aos domingos, agora lhe dava vontade de vomitar.
Na terceira manhã, Noah abriu os olhos completamente.
“Mamãe”, sussurrou.
Mariana imediatamente se curvou.
“Aqui estou, meu amor.”
“Estou com sede.”
Ela chorou silenciosamente enquanto lhe dava água com uma pequena colher de plástico.
Uma criança pedindo água não deveria ser considerado um milagre.
Mas aquele dia foi diferente.
Horas depois, o Comandante Ramírez voltou com mais informações. Lucía estava com Mariana. Dona Teresa também estava lá, sentada num canto com um saco de pão doce que ninguém ousava abrir.
Ramírez colocou a pasta sobre a mesa.
Alejandro tinha dívidas que ultrapassavam 1.800.000 pesos.
Mariana piscou.
Isso não é possível.
Cartões de crédito, empréstimos particulares, jogos de azar online, notas promissórias. Havia também ameaças de cobrança de dívidas.
Lucía cerrou os dentes.
O prato de Noah.
O sorriso de Alejandro.
“Ele cortou a carne para ele”, sussurrou ela. Carne, peixe e frutos do mar.
Todos a encaravam.
Noah não conseguia cortar o frango porque estava muito quente. Alexander o cortou em pedaços para ele. Ergueu o prato e disse: “Coma, campeão.”
Lucía irrompeu em lágrimas de raiva.
Dona Teresa cobriu o rosto.
Ramírez permaneceu em silêncio.
Porque não havia expressão legal capaz de conter tamanha crueldade.
Naquela noite, Noah fez a pergunta que Mariana mais temia.
“Mãe.”
“Diga-me, meu filho.”
“Papai sabia que eu ia comer isso?”
Mariana sentiu seu coração se partir de uma forma diferente.
Ele poderia mentir.
Poderia dizer que não, que seu pai havia cometido um erro, que fora um acidente, que às vezes os adultos fazem coisas bobas.
Mas Noah já tinha ouvido.
Ela já sentia seu corpo desmoronar.
Já vira seu pai bater na porta do banheiro, fingindo preocupação.
Mariana pegou sua mão. — Sim, meu amor.
Os olhos do menino se encheram de lágrimas.
Ele queria que ela morresse?
Mariana respirou fundo.
“Seu pai tomou uma decisão terrível. Uma decisão que nenhum pai deveria ter que tomar.
Mas eu quis fazer isso.”
Ela não conseguiu esconder a verdade.
“Sim.”
Noé virou o rosto para a janela.
Ele chorou em silêncio.
Mariana deitou-se cuidadosamente ao lado dele, embora a cama fosse pequena e as enfermeiras tivessem dito para ela não fazer isso. Ela o abraçou até que ele adormecesse.
Eles receberam alta no dia seguinte.
Eles não foram para casa.
Lucía os levou para seu apartamento no bairro de Narvarte. Era pequeno, com um sofá velho, uma cozinha apertada e janelas com vista para um prédio cinza. Mas naquela noite, quando Mariana trancou a porta duas vezes, ela se sentiu mais segura ali do que na casa grande onde quase foram mortos.
A Procuradoria recolheu os pertences dele.
Um desenho dobrado foi encontrado entre as roupas de Noé.
Colei-o na geladeira na manhã anterior ao jantar. Autoajuda e motivação.
Havia três pessoas de mãos dadas.
Um homem.
Uma mulher.
Uma criança.
Estava escrito acima:
Noite em família.
Mariana não conseguiu se conter.
Sentou-se no chão e chorou até ficar sem fôlego.
Ela não chorava por Alejandro.
Chorava pelo pai que Noé pensava ter.
Nas manhãs de aula.
Nos aniversários.
Nas fotos sorridentes.
Por todas as vezes que ignorou pequenos sinais porque queria acreditar que sua família ainda poderia ser salva.
O caso foi manchete em Querétaro.
“Empresário acusado de tentativa de envenenamento da esposa.”