Meu marido me deu um soco na cara; no dia seguinte, o café da manhã foi minha vingança silenciosa…

Mas, junto com o medo, há algo novo, algo que não consigo nomear, uma clareza que se acende dentro de mim como uma luz difícil de extinguir.

Não falo mais sozinha no escuro, não sou mais a mulher que esconde os hematomas antes de sair; agora falo a verdade diante dos outros.

E mesmo que minhas pernas tremam, já cruzei aquele limiar, aquele que separa o silêncio do que vem a seguir, e nunca quero voltar atrás.

O papel sob mim range a cada movimento, fino, áspero e frio, enquanto estou sentada na maca com os braços cruzados.

Hesito, não por mim, mas por ele, por aquela versão de Darío que ainda vive em minha mente, aquele que cuidou de mim, me amou e parecia real.

Essa imagem de um homem atencioso, que me trazia flores sem motivo aparente e me abraçava depois de um dia ruim, luta contra a outra que me destruiu.

É difícil para mim aceitar que ambos sejam a mesma pessoa, mas são, e quando me lembro do choro convulsivo de Jade, pego a caneta e assino.

Escrevo meu nome com a mão tensa, e quando termino, sinto que algo dentro de mim se quebra, de forma definitiva e irreversível.

Ao sair da delegacia, o sol me castiga, forte demais, me obrigando a semicerrar os olhos enquanto tudo lá fora parece igual.

Carros passam, pessoas riem, caminham, vivem, como se nada tivesse acontecido, enquanto eu caminho em direção ao carro com o estômago embrulhado.

Sinto uma mistura confusa de culpa, dor e alívio, como se escolher meu próprio bem-estar significasse trair tudo o que um dia compartilhei com ele.

Não sei se isso me torna corajosa ou egoísta; só sei que não consegui continuar fingindo que estava tudo bem depois daquela noite.

Ninguém conseguiria fazer isso depois de ver a filha implorar ao pai para parar de bater na mãe, com a voz embargada pelo medo.

Không có mô tả ảnh. Entro no carro e Marcos liga o motor sem dizer uma palavra, e sou grata por esse silêncio que me permite resistir sem ter que explicar nada ainda.

Olho pela janela e, pela primeira vez em muito tempo, não me sinto presa, embora a dor ainda esteja presente em cada parte de mim.

Tudo dói, mas também sinto uma leve liberdade, pequena, frágil, mas real, como uma porta que finalmente se abriu.

Jade não pisca; está encolhida no sofá, abraçando a si mesma como se quisesse desaparecer do mundo ao seu redor.

A televisão está ligada baixinho, exibindo algum programa trivial, enquanto as caixas de pizza abertas permanecem intocadas sobre a mesa, completamente ignoradas.

Sento-me na beirada do sofá, sem saber se devo me aproximar dela, querendo abraçá-la, mas duvidando se tenho o direito de fazê-lo agora.

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