Foi então que sorri.
Porque, claro, Vanessa insistira num acordo pré-nupcial. Não por prudência. Por cálculo. Ela queria um casamento glamoroso, não queria se envolver em problemas. Coitada.
Quando o juiz estava prestes a começar a leitura formal da certidão de casamento, dei um passo à frente.
“Com licença, senhor. Antes de prosseguir, preciso fazer um esclarecimento jurídico sobre uma das partes.”
O terraço inteiro ficou em silêncio.
Diego se virou para mim com um sorriso forçado.
“Mãe, agora não.”
Lucía já estava ao meu lado. Héctor abriu a pasta cinza com uma lentidão encantadora. O juiz franziu a testa.
“Do que se trata, senhora?”
Falei claramente, sem elevar a voz.
“A questão é que meu filho, Diego Villaseñor, fez uso indevido de uma procuração que lhe concedi durante uma internação hospitalar para sacar dinheiro de uma conta pessoal e simular a venda de um imóvel que não estava em meu nome, mas sim em nome de uma holding. Essa venda é legalmente nula e sem efeito. A procuração foi revogada. O cartório e o registro de imóveis já foram notificados.”
Uma onda de murmúrios percorreu os convidados.
Vanessa olhou para mim como se não entendesse o que eu estava dizendo.
“O que você está dizendo?”
Diego deu um passo em minha direção.
“Mãe, pare.”
Héctor ergueu uma cópia do documento de revogação.
“Aqui está a revogação e a notificação. E aqui está também a prova de que o imóvel localizado em Puerto Vallarta não pertencia à Sra. Teresa Villaseñor individualmente, portanto, o Sr. Diego não tinha autorização para vendê-lo.”
O juiz abaixou o documento lentamente.
Vanessa empalideceu.
“Diego… do que você está falando?”
Meu filho tentou sorrir para ela.
“Querida, é um mal-entendido técnico. Minha mãe sempre exagera em tudo quando fica emocionada.”
Olhei para ele com um cansaço que já conhecia.
“Não me chame de emotiva quando foi você quem roubou e falsificou documentos.”
Essa palavra caiu como uma pedra em água parada.
Roubou.
Falsificou documentos.
Alicia Ferrer cruzou os braços e olhou para a filha.
“Vanessa, pergunte a ele quanto dinheiro ele acha que tirou da mãe dele.”
Vanessa entreabriu os lábios.
“O quê?”
Continuei.
“Meu filho só sabia da minha conta corrente. Quarenta ou cinquenta mil pesos para despesas mensais. Minha verdadeira riqueza está em investimentos e uma holding que ele nem conseguiu rastrear. Em outras palavras: ele não me deixou pobre. Ele só se fez de bobo do nada.”
Alguns convidados soltaram suspiros abafados. Outros fingiam checar seus celulares, sem perder um único detalhe. Os amigos de Vanessa já não pareciam tão radiantes. O juiz do Registro Civil encerrou o processo. Lucía, impecavelmente vestida, permaneceu ao meu lado como se esperasse o momento exato para selar de vez o cadáver social de Diego.
Vanessa deu um meio passo para trás.
“Diego… diga-me que não é verdade.”
Ele olhou para ela, depois para mim, depois para todos. Seus olhos eram calculistas. Não moralmente. Praticamente. O que negar, o que admitir, a quem culpar primeiro.
“Foi um adiantamento”, ele finalmente deixou escapar. “Eu só estava te dando parte da herança. De qualquer forma, tudo seria meu.”
Houve um murmúrio de horror mais genuíno.
Senti algo se quebrar, mas não externamente. Internamente, em um lugar onde uma pequena mãe ainda permanecia, determinada a se justificar. Eu a vi morrer ali mesmo.
“Não, Diego”, eu disse. “Nada ‘seria seu’.” O que se herda é recebido quando o outro morre ou decide doar. Não pode ser tirado com uma procuração assinada sob efeito de febre.
Vanessa deu mais um passo para trás.
“Você fez isso?”, perguntou, sua voz agora desprovida do charme da noiva, sua garganta vazia de música. “Você usou sua mãe doente para tirar dinheiro dela?”
“Não é assim que funciona.”
“Então como funciona?”
Diego tentou se aproximar dela, mas Vanessa ergueu a mão.
“Não me toque.”
Alicia falou então, fria como uma declaração.
“O casamento está cancelado.”