Eu estava incomodada há meses porque o velho vizinho deixava suas enormes plantas encherem minha entrada de carros com folhas secas. Ontem fui lá reclamar porque o cachorro dele não parava de chorar.

Havia professores.

Mecânica.

Crianças.

Comerciantes.

Famílias completas.

Pessoas que não o viam há anos.

Pessoas que nunca imaginaram o quanto isso significou para suas vidas.

Depois do funeral voltei para casa e lembrei-me do envelope.

Minhas mãos tremiam quando abri.

Dentro havia uma única carta.

Dizia:

“Querido vizinho:

Se você está lendo isso, significa que finalmente encontrei Elena novamente.

Quero te pedir um último favor.

Não deixe as buganvílias desaparecerem.

Não porque sejam flores.

Mas porque representam algo muito mais importante.

Representam que mesmo depois de perdermos aqueles que amamos, ainda temos a capacidade de compartilhar beleza com outras pessoas.

Por muito tempo pensei que estava completamente sozinho.

Mas eu estava errado.

Todas as manhãs eu ouvia sua vassoura.

Eu ouvi seus passos.

E eu sabia que havia alguém por perto.

Então você entrou na minha casa.

E você me devolveu algo que pensei estar perdido para sempre.

Amizade

Obrigado por me lembrar que eu ainda pertencia a este mundo.

Com amor,

Samuel.”

Terminei a carta chorando.

Quase três anos se passaram desde então.

As buganvílias continuam a crescer na cerca que partilhamos.

Toda quarta-feira ainda sento naquela varanda tomando uma xícara de café.

Às vezes sozinho.

Às vezes acompanhado por um vizinho.

E cada vez que as flores deixam cair algumas pétalas na minha entrada, eu sorrio.

Porque não vejo mais folhas secas para limpar.

Vejo a lembrança de um bom homem que me ensinou uma lição que jamais esquecerei:

As maiores tragédias da vida nem sempre são a doença ou a morte.

Às vezes eles são solidão.

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