PARTE 1
“Você quer mesmo que a gente estrague nossas férias por causa de um funeral?”
Essa foi a última coisa que minha mãe me mandou por mensagem enquanto eu estava parada diante de dois caixões: um de madeira escura para meu marido, Diego, e outro branco, pequeno demais, para minha filha, Sofia.
O céu sobre Guadalajara estava tão cinza que parecia carregado de luto. A chuva caía fina e persistente, como se até Deus tivesse vergonha de ver o que estava acontecendo. Meus calcanhares afundavam na lama do cemitério, meu casaco preto parecia pesado de água, e mesmo assim eu não conseguia me mexer.
Eu não chorei.
Era isso que mais incomodava a todos.
Minha tia Teresa apertou meu braço e disse baixinho:
“Valéria, senta, querida. Você vai cair.”
Mas eu permaneci de pé.
Olhei para o caixão de Diego e me lembrei de como ele fazia chilaquiles aos domingos, sempre com creme demais, e de como ele beijava minha testa mesmo quando eu estava toda suja de farinha. Depois, olhei para o caixão de Sofía e senti algo dentro de mim se quebrar novamente. Minha filhinha tinha apenas seis anos. Estava aprendendo a escrever o nome sem inverter o “S”.
Enquanto o padre falava sobre o descanso eterno, meu celular vibrou.
Era uma foto.
Minha mãe, meu pai e meu irmão Mateo estavam em uma praia em Cancún. Descalços, bronzeados, sorrindo com canecas coloridas nas mãos. Mateo estava no meio deles, como sempre: o filho perfeito, o mimado, aquele que nunca fazia nada de errado.
Abaixo da foto, minha mãe escreveu:
Desculpe, querido. As passagens aéreas são muito caras, e essas coisas são emocionalmente desgastantes. Além disso, não podemos cancelar tudo por algo tão insignificante.
Insignificante.
Aquela palavra me atingiu mais do que a chuva, mais do que a terra caindo sobre os caixões, mais do que os abraços desajeitados de pessoas que não sabiam o que dizer.
Minha filha era insignificante.
Meu marido era insignificante.
Minha dor era insignificante.
Depois do enterro, enquanto todos se afastavam com guarda-chuvas pretos, recebi outra mensagem.
Mãe: Quando terminar com isso, me ligue. Precisamos conversar sobre algo importante.
Elena, a irmã de Diego, viu minha expressão.
“Foram eles?”
Assenti com a cabeça.
“Não responda a eles”, disse ela com uma raiva fria.
“Não vou responder”, respondi.
Ainda não.
Três dias depois, voltei para casa. O silêncio me recebeu como uma parede. As botas amarelas de Sofia ainda estavam perto da porta, manchadas de lama do último dia em que ela brincou no jardim. A xícara de café de Diego estava ao lado da pia. Ninguém ousava mexer em nada, como se tocar em suas coisas fosse aceitar que não voltariam.
Às sete horas daquela noite, houve uma batida forte na porta.
Abri.
Meus pais estavam lá, vestidos com linho branco, ainda bronzeados pelo sol. Atrás deles, Mateo esperava, encostado em um SUV alugado, olhando para o celular como se estivesse ali para pegar comida para viagem.
Minha mãe entrou sem permissão.
“Finalmente. Você está com uma aparência terrível, Valeria.”
Meu pai olhou ao redor da sala de estar.
“Onde estão os documentos do seguro?”
Pisquei lentamente.
“Com licença?”
Mateo entrou atrás deles e disse, sem levantar os olhos:
“Precisamos de quarenta mil dólares. Só isso.”
“Só isso?”, repeti.
Minha mãe colocou a bolsa sobre a minha mesa.
“Não seja tão dramática. O Diego tinha seguro de vida, não é? Depois de tudo que fizemos por você, você nos deve.”
Observei seus rostos bronzeados, suas sandálias caras, a indiferença com que entraram na casa onde minha filha havia rido.
Então peguei a pasta preta que segurava.
E, pela primeira vez desde o funeral, sorri.
Ninguém poderia imaginar o que estava prestes a acontecer.
PARTE 2
Minha mãe viu a pasta e pensou que meu silêncio fosse obediência.
“Aqui está”, disse ela, apontando para ela. “Você já estava conferindo o dinheiro. Ótimo. Assim não perdemos tempo.”
Meu pai sentou-se à mesa da cozinha como se a casa fosse dele.
“O Mateo tem uma oportunidade de investimento. Uma empresa de transportes. Você recupera tudo em três meses. A família se apoia mutuamente, Valeria.”
“A família vai a funerais”, eu disse.
Mateo soltou uma risada seca.
“Não exagere. Pessoas morrem todos os dias.”
O ar ficou gelado.
Minha mãe lançou-lhe um olhar rápido, não porque se importasse com o que ele dissera, mas porque ele fora desajeitado demais para esconder sua crueldade.
Coloquei a pasta sobre a mesa.
Os três inclinaram-se ligeiramente para a frente.
Mas eu não a abri.
“Diego e Sofía morreram porque um caminhão furou o sinal vermelho na Avenida López Mateos”, eu disse. “É o que diz o boletim de trânsito.”
Meu pai suspirou.
“Sim, uma tragédia. Mas agora estamos falando de outra coisa.”
“Não”, respondi. “Estamos falando exatamente disso.”
Mateo parou de mexer o dedo na tela.
Foi então que eu vi.
O primeiro medo.
Antes de me casar com Diego, antes de me tornar mãe, antes de me tornar a mulher que todos achavam que estava quebrada, eu trabalhava como auditora forense no Ministério Público. Minha família sempre zombava disso. Diziam que era chato, que analisar números não era um trabalho de verdade.
Mas depois do acidente, eu não conseguia dormir.
Então fiz a única coisa que ainda sabia fazer: r